Ponto de vista de Taehyung: Os gritos familiares e irritantes dos meus pais me acordaram, ecoando pelas paredes finas da nossa pequena casa. Era uma ocorrência diária, uma trilha sonora para a minha vida. Mas hoje, o desespero habitual vinha carregado de uma estranha e insistente lembrança. A lembrança *dele*. Jeon Jungkook.
Arrastei-me para fora da cama, a rotina era uma dor surda de repetição. Enquanto a água quente escorria pela minha pele, minha mente voltou para a noite passada. A sensação dos seus lábios nos meus, a pressão gentil do seu toque, a forma como seus olhos encontraram os meus – um olhar que me fez sentir, por um momento fugaz, bonito.
Haviam se passado apenas algumas horas desde que nos encontramos, mas eu sentia uma atração, um afeto crescente que parecia ao mesmo tempo aterrorizante e estimulante. Uma dor familiar se instalou no meu peito, a percepção de que isso poderia ser um encontro único e impossível.
Então, uma frase que ele havia dito ressurgiu. “Nós nos encontraremos novamente, bonito.”
*Bonito*. A palavra parecia estranha, uma zombaria cruel quando aplicada a mim.
Desliguei a torneira e saí do chuveiro, virando-me para encarar meu reflexo. O espelho ofereceu uma avaliação dura. Muito magro. Cabelo castanho e desalinhado caindo sobre o meu rosto. Hematomas persistiam sob meus olhos. *Não bonito*.
Vestindo minhas calças de ginástica desgastadas, desci as escadas rapidamente, evitando a discussão que se intensificava lá de cima, e escapando dos limites da nossa pequena casa.
Caminhando em direção ao ponto de ônibus, olhei para o nosso bairro – uma paisagem de pobreza e crime. Nossa casa dilapidada era um testemunho da nossa desgraça.
Não tinha sido sempre assim. Eu me lembrava de um tempo de estabilidade, de uma família funcional, de amigos, de uma vida cheia de alegrias simples. Mas a perda do emprego do meu pai havia destruído tudo.
A consequente pressão financeira nos forçara a mudar para aqui, para este canto desolado da cidade. A primeira briga dos meus pais explodiu logo depois, uma ferida que nunca cicatrizou completamente. Este bairro só trouxe desespero.
O ônibus chegou, suas portas sibilando ao abrir. Entreguei minha tarifa ao motorista, encontrando um assento perto do fundo. Meu olhar vagou pelo corredor, e meu coração saltou.
Lá estava ele. Jungkook. Cabelo perfeitamente penteado, vestido com um terno de negócios impecável. Parecia incrivelmente bonito.
“J-Jungkook”, eu sussurrei, quase inaudível.
Seus olhos encontraram os meus. Esses olhos escuros e intensos.
Ele sorriu, um movimento lento e conhecedor dos seus lábios. “Eu te disse que nos encontraríamos novamente.”
O pânico surgiu quando percebi que o ônibus estava se aproximando do meu ponto. Olhei para trás, para ele, seu olhar fixo, queimando com uma intensidade que me arrepiou.
Ele se inclinou, seus lábios roçando os meus. Respondi sem pensar, desesperado para sentir aquela conexão novamente.
Ele interrompeu o beijo, e percebi que o ônibus havia chegado ao meu ponto. Tentei me levantar, mas seu aperto no meu braço era firme, impedindo minha fuga.
“Que horas a escola termina?” ele perguntou, seu olhar fixo na minha mochila.
“3…3 da tarde. Espera – por que você não pegou seu carro hoje?”
“Ah, não estava com vontade.”
Ele roçou os lábios nos meus mais uma vez, um toque fugaz. “Vejo você mais tarde, Tae.”
As portas do ônibus se fecharam, e eu tropecei para fora, minhas bochechas ardendo com um rubor que não consegui reprimir.
Caminhei em direção à escola, um sorriso bobo estampado no rosto, e o peso de um segredo, uma esperança estimulante, florescendo no meu peito.