O quarto pendurou em uma quietude não natural, do tipo que se agarra a um lugar quando o próprio tempo pára. Kael ficou ao lado da janela, seu reflexo se estilhaçou no vidro, espelhando a paisagem da cidade fraturada do lado de fora. Carros foram congelados no meio das ruas, pessoas presas em momentos de riso ou terror, um cão suspenso no meio do salto sobre um carro estacionado.
Lena sentou-se à mesa, seus dedos traçando as linhas dos desenhos de Jonas espalhados diante dela. Ela pegou um esboço – uma cidade em chamas que enviou um calafrio através de Kael. Os detalhes eram assustadoramente precisos: fumaça subindo de arranha-céus quebrados, pequenas figuras fugindo em pânico.
"O que você vê quando você olha para estes?" Lena perguntou suavemente, não se voltando para enfrentá-lo. Sua voz era gentil, mas insistente, uma demanda silenciosa por respostas.
Kael hesitou, seu olhar piscando entre o desenho e suas costas. O peso do passado pressionado contra ele, uma força invisível que ele passou anos suprimindo. “Apenas ... uma cidade em chamas”, ele respondeu, seu tom cuidadoso, guardado.
Lena virou-se para olhar para ele, com os olhos olhando para o rosto. “E o que isso faz você pensar?”
Um músculo se contorceu na mandíbula de Kael. Ele queria desviar, desligar a conversa antes que pudesse mergulhar em territórios enterrados. Mas havia algo no olhar de Lena - uma mistura de curiosidade e preocupação - que o desarmou.
"Eu não sei", disse ele, finalmente, sua voz mal acima de um sussurro. "Isso me faz pensar em... caos."
Lena assentiu lentamente, como se entendesse mais do que ele estava dizendo. Ela pegou outro desenho, este um vórtice rodopiante de cores desafiando a gravidade. “E este?”
Kael deu um passo mais perto, atraído para a imagem turbulenta. Lembrou-o de algo - um antigo experimento que deu errado, vidro quebrado em todos os lugares. A memória estava irregular, afiada como vidro quebrado.
“É... complicado”, murmurou, com a voz distante. “Isso me lembra um acidente.”
Os olhos de Lena suavizaram. “Um acidente?”
Kael vacilou para a palavra, uma reação reflexiva ao eco da dor do passado. Ele se virou, passando uma mão pelo cabelo. “Há muito tempo”, disse ele, ainda de costas para ela. “Eu estava ensinando física. Houve um experimento ... deu errado.”
Ele podia vê-lo agora - a sala de aula cheia de estudantes ansiosos, o equipamento zumbindo com energia. E então a explosão, o grito de metal rasgado, o cheiro acre de fumaça.
Lena levantou-se, sua cadeira raspando contra o chão. Ela se moveu para ficar ao lado dele, perto, mas não tocando. “O que aconteceu?” ela perguntou suavemente.
A voz de Kael mal era um sussurro: “Alguém morreu”.
As palavras pairavam no ar entre eles, pesadas com culpa tácita. Lena estendeu a mão, pairando perto de seu braço antes de puxar para trás, como se não tivesse certeza de sua recepção. “Sinto muito”, ela disse calmamente.
Kael assentiu, com os olhos fixos na cidade congelada do lado de fora. Ele podia sentir a dormência familiar se espalhando por ele, o desligamento emocional que se tornou seu mecanismo de enfrentamento. “Foi há muito tempo.”
A voz de Lena era gentil, mas persistente. “E, no entanto, aqui está você, ainda se punindo.”
Ele endureceu, suas palavras atingiram um nervo. “Eu não sou...”
“Você é”, ela interrompeu, sua voz firme. “Você afasta todo mundo, Kael. Você se esconde atrás de sua lógica e suas equações, mas você não está enganando ninguém.”
Os punhos de Kael se cerraram em seus lados, sua respiração veio em rajadas curtas e controladas. O quarto parecia muito pequeno, o ar muito grosso. Ele queria atacar, negar suas acusações, mas as palavras presas em sua garganta.
Lena deu um passo mais perto, sua voz caindo para um quase sussurro. “Você acha que é o único que perdeu alguma coisa? Que sua dor é única?”
Kael virou-se para encará-la, seus olhos piscando de raiva repentina. “Não é sobre isso”, ele mordeu. “Eu só... eu não posso...”
“Não pode o quê?” Lena desafiou, sua voz se erguendo. “Sinta-se? Conecte-se? Você acha que se desligar torna melhor? Não faz.”
A visão de Kael turva, a sala girando ao seu redor. Ele sentiu uma onda de raiva, quente e primitiva, borbulhando de algum lugar profundo e escuro. Com um rugido, ele varreu o braço pela mesa, enviando os desenhos de Jonas voando.
Lena pulou para trás, com os olhos bem abertos de choque. Kael ficou lá, no peito, enquanto a sala ecoava com o som de sua fúria. Ele podia ver o medo no rosto de Lena, a maneira como ela se abraçou, e quebrou algo dentro dele.
Ele respirou fundo, seu corpo tremendo com o esforço de recuperar o controle. “Sinto muito”, disse ele, sua voz enfureceu. “Eu não quis dizer...”
Lena o cortou, com a voz afiada. “Não, Kael. Você quis dizer cada palavra disso.”
Kael olhou para ela, realmente a viu pela primeira vez em um longo tempo. O medo ainda estava lá, mas também foi uma determinação de aço. Ele sentiu uma pontada de algo - arrependimento? Culpa? - mas foi engolido pelo caos rodopiante de suas emoções.
“Saia”, ela disse, com a voz fria. “Apenas... vá.”
Kael hesitou por um momento, depois virou-se e foi embora, deixando Lena sozinha na sala cheia de desenhos dispersos e ilusões quebradas. A porta clicou fechada atrás dele, selando-o do confronto que ele não poderia enfrentar.
O corredor estava vagamente iluminado, o silêncio opressivo. Kael se inclinou contra a parede, sua respiração ragou enquanto ele tentava acalmar a tempestade dentro dele. Ele ainda podia sentir as palavras de Lena ecoando em sua mente, suas acusações ressoando profundamente dentro de seu peito.
Fechou os olhos, respirando fundo e, por um momento, deixou-se lembrar.
O laboratório era brilhante, o zumbido de máquinas reconfortantes. Seus alunos estavam agrupados em torno da mesa principal, ansiosos e animados. Ele estava na frente, explicando os princípios do deslocamento temporal, sua voz estável, apesar da vibração nervosa em seu estômago.
“Professor Vance”, um estudante gritou, “você tem certeza de que isso é seguro?”
Ele sorriu tranquilizantemente. “A ciência não é sobre estar seguro, é sobre descoberta.”
A demonstração começou sem problemas. O dispositivo ecoou para a vida, um vórtice rodopiante de luz e energia. Então, sem aviso, ele surgiu. O vórtice se expandiu, engolindo o laboratório no caos. Gritos ecoaram enquanto os alunos se enrolavam para se cobrir. Vidro quebrado, metal gemido, e em meio à cacofonia, ele ouviu sua voz o riso de sua esposa, cortado por um suspiro sufocado.
Os olhos de Kael se abriram, sua respiração se engasgou como se ele estivesse segurando debaixo d'água. O corredor borrado ao seu redor, as memórias muito vivas, muito cruas. Ele empurrou para fora da parede, tropeçando longe do passado, mas se agarrou a ele como uma segunda pele.
De volta à sala, Lena ficou ao lado da janela, com o olhar fixo na cidade congelada. Ela não se virou enquanto ele entrava, mas ele podia sentir o peso de seu silêncio. Ele queria falar, pedir desculpas, explicar, mas as palavras presas em sua garganta.
"Kael", disse ela, finalmente, sua voz suave, mas inflexível. "Você não pode continuar fugindo disso."
Ele ficou lá, preso entre os ecos do passado e as exigências do presente. O quarto estava quieto, o ar grosso com palavras não ditas e tensão persistente. Ele sentiu uma estranha calma se estabelecer sobre ele, uma resignação à verdade que ele vinha evitando há tanto tempo.
“Eu sei”, ele sussurrou, sua voz mal audível. “Eu sei.”
Lena virou-se para ele, com os olhos refletindo uma mistura de empatia e determinação. “Então, o que você vai fazer sobre isso?”
A questão pairava no ar, um desafio e um ramo de oliveira. Kael olhou para ela, vendo não apenas a mulher que o havia confrontado, mas também o amigo que o havia apoiado através de inúmeras provações. O peso de seu passado pressionado sobre ele, mas pela primeira vez, ele sentiu um vislumbre de esperança - espero que talvez, desta vez, ele pudesse enfrentá-lo.
"Eu não sei", admitiu ele, sua voz firme apesar da turbulência interna. "Mas eu tenho que tentar."