Estática

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Kael Vance congelou no meio do passeio, seus pés pendurados centímetros acima do pavimento. A cidade ao seu redor era um quadro de vida morta, capturado em um instante de pandemônio. Carros pendurados suspensos na rodovia, seus motores cascas silenciosas. Pedestres eram estátuas, cada um congelado em eternidades pessoais.

Ele piscou rapidamente, tentando dissipar a imobilidade repentina de seus sentidos. A mão de um músico de rua parou no meio da fenda em uma corda de guitarra que nunca vibrava. Um pombo congelou no meio do vôo, as penas se agitaram como se estivessem presas em um vento que nunca chegou..

Ele balançou a cabeça violentamente, tentando limpar a descrença. Isso não era possível. As pessoas não pararam de se mover. Nem tudo de uma vez..

Ele deu passos para a frente, cada movimento irregular e antinatural no mundo silencioso. As solas de seus sapatos gritavam contra o asfalto, o único som perfurando o vácuo. Ele estendeu a mão, tentando tocar o braço de uma mulher próxima. Sua pele estava quente, mas ela não reagiu. Não piscou. Não respirava..

Um frio tentáculo de medo enfiou-lhe a espinha, ele girou em volta, procurando qualquer sinal de vida, de movimento, nada, apenas um quadro infinito de figuras congeladas que se estendem em todas as direções..

Sua respiração engasgou quando ele viu Lena Thorne, sua colega e amiga, presa em seu passo, um braço estendido como se agarrando a algo além do alcance. Ele se moveu em direção a ela, seus passos ecoando de forma não natural no silêncio. Quando ele se aproximou, ele notou o leve tremor em sua mão estendida, uma vibração quase imperceptível que falava de vida sob a estase.

Alívio passou por cima dele antes que a lógica voltasse, se Lena estava viva, por que ela não se movia?

"Lena", ele sussurrou, sua voz crua e incerta, sem resposta, apenas aquele pequeno tremor em seus dedos..

O desespero agarrou-o, ele precisava de respostas, precisava entender essa loucura, o olhar dele se aproximou, aterrissou em um beco próximo, um brilho escurecido emanava de dentro, acenando como uma chama de sinal..

Ele hesitou apenas um momento antes de entrar nas sombras. O beco era estreito, as paredes se fechando em torno dele. O ar ficou mais frio, mais denso, como se resistisse à sua intrusão. No final, uma porta de metal pesado ficou ligeiramente entreaberta, derramando luz amarela no pavimento sujo.

Ele a abriu, revelando um quarto branco, quatro figuras paradas ou sentadas dentro, cada uma tão imóvel quanto a paisagem urbana lá fora. Um homem de porte militar, com o rosto gravado com profundas linhas de tensão. Uma criança, pequena e solene, esboçando atentamente em um pedaço de papel. Uma mulher mais velha com cabelos prateados, seus olhos fechados no que parecia meditação serena.

E então havia Mira, Dra. Mira Holloway, ex-mentora de Kael, em pé junto a um painel de controle coberto de luzes piscantes..

Kael entrou na sala, com o coração batendo, a porta se fechou atrás dele com finalidade, ele se virou para Mira, procurando respostas em seu rosto familiar, "Mira", ele disse, sua voz ecoando estranhamente no silêncio, "O que está acontecendo?"

Ela não respondeu, nem se mexeu..

Ele respirou fundo, tentando se firmar. Pense, Kael, você é um cientista. Observe. Analise. Controle..

Ele se aproximou da criança, observando o intenso foco em seu rosto enquanto desenhava. O menino olhou para cima, os olhos se encontraram com Kael com uma intensidade perturbadora. Jonah. Esse era o sobrinho de Lena, não era? Kael lembrou-se de Lena mencionando-o uma vez, sua voz suave com carinho.

"O que você está desenhando, Jonah?" Kael perguntou suavemente, agachando-se até o nível dele..

Ele olhou para a almofada, vendo um rastro caótico de linhas e formas que pareciam dançar além da compreensão. Foi perturbador, este quadro silencioso, essas pessoas congeladas como manequins. Ele sentiu uma dor de desconforto, uma sensação de que algo estava profundamente errado aqui.

Kael endireitou, voltando sua atenção para Mira, sua quietude o enervou mais do que os outros, ela deveria ser diferente, ela deveria saber o que estava acontecendo..

"Mira", ele tentou de novo, mais alto desta vez..

Ele se estendeu, hesitando brevemente antes de tocar o braço dela, estava quente, sólido, vivo, mas imóvel, sua mente correu, peneirando as possibilidades, isso não era natural, nada nessa situação fazia sentido..

O olhar dele se inclinou para o painel de controle. As luzes piscavam constantemente, um pulso rítmico que parecia zombar de seu crescente desconforto. Ele se inclinou, estudando a variedade de botões e interruptores. Nada disso era familiar. Não combinava com nenhuma tecnologia que ele reconhecesse..

Ele se endireitou, dando um passo para trás. O quarto parecia opressivo agora, o ar estava cheio de tensão. Ele podia sentir isso pressionando contra ele, um peso quase físico. E lá, por baixo de tudo, uma injustiça sutil - um cheiro fraco, talvez, ou um zumbido muito baixo para ouvir. Algo que colocou seus dentes na borda.

Kael se virou lentamente, pegando cada uma das figuras, o militar, sua postura rígida, Jonah, ainda esboçando com aquele foco inquietante, Lena, congelada do lado de fora da sala, e Mira, em silêncio e sem resposta ao lado dele..

O peso do silêncio o pressionava, sufocando, ele precisava quebrá-lo, para quebrar essa calma não natural.

Seus olhos se encontraram com Jonah de novo, e por um momento, ele sentiu uma faísca de conexão. O menino segurou seu olhar firmemente, depois olhou para baixo em seu desenho. Kael seguiu sua linha de visão, vendo a almofada inclinada ligeiramente em direção a ele..

Ele se inclinou, estudando as linhas caóticas mais de perto. E lá, no meio do rabisco, ele viu um rosto. Seu próprio rosto, olhando de volta para ele a partir da página. A realização enviou um choque através dele, uma onda de adrenalina que baniu um pouco do medo frio.

Kael ficou de pé, com seus movimentos bruscos com urgência recém-descoberta, ele precisava agir, fazer alguma coisa, qualquer coisa, para interromper essa estranha estase, mas o quê?.

Ele olhou para Mira de novo, seu rosto ainda impassível. Uma ideia começou a se formar, tentativa e frágil como uma bolha de sabão. Se ele não pudesse acordá-los, talvez ele pudesse aprender algo de sua quietude. Talvez houvesse um padrão, uma pista escondida em suas posturas congeladas.

Movendo-se rapidamente agora, ele começou a circular a sala, examinando cada figura com nova intensidade. A postura do militar era defensiva, sua linguagem corporal gritava tensão. O foco de Jonah era tão completo que beirava o transe. Lena, fora da porta, alcançou algo invisível..

E Mira ficou à vontade, sua expressão calma, quase calma demais, como se ela esperasse isso, como se soubesse o que estava acontecendo..

Kael parou na frente dela, seu coração batendo. Ele estendeu a mão, tentando tocar a bochecha dela. Sua pele estava quente, macia. Vivo. Mas ainda imóvel. Seus dedos se arrastaram até o pescoço, sentindo um pulso. Lá estava, firme e forte..

O quarto estava errado agora, o ar muito pesado, o silêncio muito alto, e o desenho de Jonah... aquele rosto olhando para ele....

Kael deu um passo atrás, sua respiração veio em breves suspiros, ele precisava pensar, planejar, mas todos os instintos gritavam para ele correr, para escapar deste lugar e nunca olhar para trás..

No entanto, ele não podia deixá-los, não assim, com Lena lá fora, congelada e sozinha, ele respirou fundo, tentando se firmar, observar, analisar, controlar..

O olhar dele voltou para o painel de controle, depois para o desenho de Jonah. O rosto olhando para ele parecia acusar, para exigir respostas que ele não tinha. Mas uma coisa era clara: o que estava acontecendo aqui, centrado em torno daquele garoto..

Kael voltou para Jonah, agachando-se ao lado dele. "Jonah", ele disse suavemente, sua voz mal mais do que um sussurro. O menino olhou para cima, encontrando seu olhar com a mesma intensidade inquietante. Kael estendeu uma mão, palma para cima, em uma oferta silenciosa.

Jonah olhou por um momento, e lentamente colocou o lápis na mão de Kael, um pequeno gesto, mas parecia uma ponte, uma conexão forjada no silêncio..

Kael pegou o lápis, virando-o em seus dedos. Era uma coisa comum, mas agora ele tinha poder, um símbolo de comunicação neste mundo de estase. Ele olhou para Jonas, procurando por qualquer sinal de reconhecimento, de compreensão..

Mas o garoto simplesmente voltou ao seu desenho, o lápis substituído por outro de uma pequena lata no chão. Kael o observou por um momento mais, então ficou de pé, voltando para o painel de controle.

Ele estudou de novo, sua mente correndo. Tinha que haver algo aqui, alguma pista do que estava acontecendo. Ele estendeu a mão, tentando pressionar um botão ao acaso. Nada aconteceu. O quarto permaneceu inalterado, o silêncio ininterrupto.

Isso foi loucura, ele não estava mais perto de entender do que estava quando entrou pela primeira vez, mas ele não podia desistir, não com Lena lá fora, não com Jonah desenhando rostos que não deveriam existir..

Ele respirou fundo, se endurecendo, pense, Kael, você é um cientista, observe, analise, controle..

Mas, por enquanto, tudo o que ele podia fazer era esperar, esperar e esperar que algo, qualquer coisa, mudasse..

O ar na sala mudou sutilmente, uma mudança quase imperceptível que causou um arrepio em sua coluna. Ele olhou ao redor, procurando a fonte, mas tudo permaneceu o mesmo..

Excepto... a almofada de desenho de Jonas foi inclinada ligeiramente em direção a ele novamente, como se se oferecesse ao seu olhar. Kael hesitou, então inclinou-se, estudando o rabisco caótico mais uma vez. E lá, entre as linhas, ele viu um padrão emergente. Uma paisagem urbana desta vez, reconhecível apesar das distorções. E no seu centro, uma figura de pé sozinha.

A respiração de Kael agarrou-se à medida que a percepção despontava. A figura era ele. Ele olhou para cima do desenho, encontrando o olhar de Jonah. O menino segurou o olhar firme, então assentiu levemente, quase imperceptivelmente..

Nesse momento, Kael entendeu, o que quer que fosse, o que quer que os trouxesse aqui, envolveu-o, centrou-se em torno dele, Jonah, Lena, Mira e Elias, todos eles congelados nesta pausa não natural..

E com esse entendimento veio uma nova resolução, ele não correria, não ainda, primeiro, ele observaria, analisaria, e então, quando ele tivesse respostas, ele agiria..

Ele deu uma última olhada ao redor da sala, para as figuras silenciosas e as luzes piscando. Então, com deliberada lentidão, ele se sentou ao lado de Jonah, pronto para esperar. Pronto para assistir. Pronto para entender.

O ar parecia diferente agora, carregado de um senso de propósito. O erro ainda estava lá, mas era temperado pela determinação. Ele desvendaria esse mistério, um fio de cada vez..