Para Dentro da Teia
O setor leste da Teia parecia um membro fantasma, uma dor familiar que eu rastreava com passos cuidadosos. Eu voltava sobre meus passos, verificando ângulos, fantasma entre as multidões. Uma cauda não era uma certeza, apenas um risco que eu não podia me dar ao luxo de ignorar. Não hoje.
Quando cheguei ao Domo, a manhã havia florescido em um caos de meio-dia. O ar vibrava com os gritos dos vendedores, as risadas das crianças, os gritos afiados daqueles que foram aliviados de suas moedas. Acima, o teto rachado – um espelho fraturado de um céu que mal me lembrava. Um dia, eu veria nuvens de novo. Um dia, sentiria o spray do mar. Mas até que a superfície estivesse segura, esses sonhos eram luxos. Eu nunca conheci o mar, mas eu conhecia suas histórias.
Eu vasculhei as barracas, um caleidoscópio de mercadorias. Tudo estava à venda, se você tivesse os créditos para gastar. Os créditos estavam apertados para todos, especialmente agora que a magia de terceiro nível foi proibida. Nós, os poucos que ainda nos apegávamos às velhas maneiras, nos arranjávamos em bicos, recolhendo os restos que as autoridades deixavam para trás. Eu precisava de algo, qualquer coisa, para nos manter à tona. Eu comecei a circular o perímetro do domo, minhas costas pressionadas contra a parede curva, eliminando pontos cegos. Eu olhei para o andar acima, para o bar “Pilar Carmesim”, uma estrutura extravagante e opulenta pertencente a algum mago de segundo nível. Todos eles possuíam algo.
“Alguma notícia, y/cor?”
A voz era um sussurro em meu ouvido, e eu saltei, um reflexo aprimorado por anos de paranoia. CL estava ao meu lado, como se estivesse ali o tempo todo. Ela tinha essa maneira.
“Faz tempo que não nos vemos”, ela disse, seus olhos avaliando. “O que posso fazer por você?”
“Eu preciso de um trabalho.” Eu declarei com franqueza. CL sorriu, um flash de dentes brancos contra as sombras esfumaçadas. Ela passou uma mecha de cabelo preto sobre o ombro, um gesto que parecia… deliberado.
“Claro. Acenda um fogo no setor oeste. Lugar do Stretten. Você o conhece?”
“Sim…” Eu hesitei. “Mas por quê?”
“Vingança pessoal”, ela disse, sua voz baixa. “Considere isso… um favor. Deixe isso aqui também.” Ela me entregou um disco de metal, frio e pesado na palma da minha mão, com suas iniciais em alto relevo.
“Quanto?”
“Oito centos em prata.”
A quantia quase roubou minha respiração. Meses de segurança com esse tipo de crédito.
“Eu aceito.”
Eu vendi algumas poções antes de ir para o oeste, o suficiente para comprar uma refeição decente. Jin ficaria feliz. Ele sempre sentia a picada das barrigas vazias com mais força. Eu parei antes de uma mesa transbordando de bugigangas – minúsculas esculturas de rosas e penas, dispostas aleatoriamente. Um velho sorriu para mim, seus olhos enrugados pela idade.
“Um para a linda moça”, ele crocitou, estendendo um clipe de prata adornado com uma concha delicada.
“Desculpe, não tenho dinheiro”, respondi, sentindo um rubor de vergonha. Seu trabalho era lindo, mas ele provavelmente não vendia muito.
“É por minha conta”, ele disse, seu sorriso torto e gentil.
Eu o encarei, atordoada.
“Obrigada, senhor.” Eu prendi a concha ao meu capuz enquanto caminhava.
O setor oeste era um pulmão de fuligem e decadência. O ar tinha gosto de cinza e arrependimento. Eu queria que Jimin estivesse comigo, ou mesmo apenas alguém. Eu puxei o capuz com força, mascarando minha boca e nariz. Eu não podia arriscar ser reconhecida. Eu olhei para trás. A rua estava vazia, exceto pelo sinal de neon piscando do pub de Stretten. O pub estava surpreendentemente movimentado, um contraste marcante com o vazio usual dos estabelecimentos da teia.
À medida que me aproximava, eu sentia o cheiro forte de álcool, ouvia o murmúrio de vozes. Virando a esquina, vi que estava lotado. Eu tentei banir os rostos que eu queimaria, estabilizar minhas mãos trêmulas. Eles eram apenas magos. Eles ficariam bem.
Eu respirei fundo, puxei a poção e o disco e os arremessei pela porta. O impacto foi um baque surdo, seguido por um coro de gritos. Então, as chamas irromperam, lambendo a maçonaria, subindo pelas paredes, enrolando-se como línguas escarlates. A rua estava banhada em um brilho infernal.
Eu virei a esquina, ofegando ar, e me inclinei contra o concreto frio. Eu puxei a máscara para baixo, forçando-me a respirar. Eu caminhei mais fundo na viela, parando para me recompor. Então, eu congelei. Uma risada profunda ecoou atrás de mim.
Eu me virei. Um homem havia caído do telhado, pousando silenciosamente. Ele sorriu, seus olhos brilhando como os de um gato.
“Nada mal, garota”, ele disse, sua voz um raspo baixo. “Nada mal.”