A Flor Cinzenta

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Luís começou a organizar seus pensamentos, desejos e maravilhas em palavras. Seu quarto era tão silencioso que se podia ouvir apenas o som da ponta de sua caneta preta favorita arranhando o papel e o roçar do antebraço contra a madeira lisa de sua mesa. Fracos círculos de luz vazavam pela janela aberta ao lado dele, destacando a página quase em branco à sua frente.

Ele não tinha ideias, nenhuma inspiração, nenhum pensamento que valesse ser transformado em tinta. Sua mente buscava algo para focar, algo para direcionar sua energia. Seus olhos vagavam pelo quarto, até mesmo algo pequeno serviria, apenas para preencher o tempo.

Embora Luís se sentisse cansado, ele não precisava dormir. Ele estava *sempre* cansado, então não era novidade ou motivo de preocupação. Ele se lembrava de um tempo em que estava cheio de vida, mal passando um dia sem sair, apreciando cada pequeno detalhe em seu subúrbio perfeito. Agora, ele havia perdido o interesse — não apenas naquele, mas em quase tudo que antes lhe trazia alegria. Ultimamente, tudo parecia sem sentido.

O nascer do sol, ainda escondido atrás da colina ao lado de sua casa, chamou sua atenção. A luz líquida filtrava pelas fendas nas folhas e galhos da árvore no topo da colina íngreme. Sinceramente, era uma das únicas coisas que ele ainda considerava bonita em um mundo onde se sentia cada vez mais preso.

Ele se concentrou na árvore. As cores se misturavam perfeitamente, despertando um lampejo de algo parecido com excitação — não por nada específico, mas simplesmente pela esperança de que ainda pudesse encontrar beleza em algo tão minúsculo como uma árvore em uma colina cercada por ruas familiares.

Luís bufou, notando as nuvens escuras e ameaçadoras pairando nos arredores da cidade como um aviso silencioso que havia se infiltrado no céu enquanto ele estava perdido em pensamentos. Embora não tivesse planos de sair de seu pequeno quarto bagunçado — geralmente passava seus dias ouvindo vinis que havia coletado ao longo dos anos ou lendo tranquilamente perto da janela — ele sentiu um leve toque de decepãoção.

Seus pais, é claro, desaprovavam seu hábito de nunca colocar os pés fora de casa. Achavam absurdo e insalubre. Luís havia aprendido há muito tempo a ignorar suas preocupações. Seus pais podem ter a intenção de ajudar, mas seus esforços pareciam importunações. A última vez que tentaram ajudar, suas intenções eram egoístas e equivocadas.

Luís sentou-se no pequeno banco da janela, uma forma pentagonal que se projetava da parede. As janelas eram altas, atingindo o teto, permitindo que mais da luz solar desvanecida se derramasse.

Ele puxou uma caixa antiga e desgastada de baixo de sua mesa, cheia de vinis que seu pai havia dado a ele em seu décimo aniversário — o dia em que Luís desenvolveu sua paixão por colecioná-los. Ele simplesmente gostava do som cru da música de um toca-discos.

Seu gosto era variado, desde faixas obscuras conhecidas apenas por alguns até as músicas tocadas infinitamente no rádio.

Luís colocou fracamente a caixa ao lado dele, seus dedos folheando inúmeros discos até que ele se decidiu pelos Beatles. Ao encontrar o álbum, soltou um pequeno som de triunfo — quase se surpreendendo com a explosão de felicidade. A música tinha esse efeito sobre ele.

Ele puxou o primeiro disco de sua capa branca, adornada com as letras cinzas "The Beatles", e o colocou sobre a vitrola. Ele se recostou em seu banco da janela e, quando a agulha se assentou no vinil, suas pálpebras caíram, sua cabeça repousando contra a parede ao lado da janela.

*Martha My Dear* era uma de suas favoritas. Enquanto tocava, ele se sentia menos vazio, a música acalmante e alegre. Ele tinha uma afinidade particular pela canção. Quando a ouviu pela primeira vez, estava passando por um momento sombrio que não acreditava que jamais terminaria, mas encontrou conforto ao ouvi-la, vinda de um homem que idolatrava desde a infância, implorando-lhe que levantasse a cabeça, que seguisse em frente, que se lembrasse dele. O Álbum Branco foi uma de suas primeiras experiências musicais, seu pai tocando-o quase todos os dias.

Martha my dear though I spend my days in conversation Please Remember me Martha my love Don't forget me Martha my dear

Hold your head up you silly girl look what you've done When you find yourself in the thick of it Help yourself to a bit of what is all around you Silly girl

À medida que o álbum continuava, seus olhos permaneceram fechados e, pela primeira vez em dias, ele adormeceu.

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Luís acordou bruscamente com o som de leves batidas na porta de seu quarto. Ele percebeu que havia adormecido e suspirou profundamente. Quando voltou o olhar para a porta, viu Niall espiando a cabeça pelo batente, hesitante em perturbá-lo.

“Tudo bem, amigo, vamos lá, eu estava só tirando uma soneca”, Luís sorriu grogue. Niall sentou-se na cama bagunçada e não feita de Luís e sorriu expectante.

“Então você vai explicar a visita inesperada ou—”

“Você saiu ultimamente?” Niall perguntou, interrompendo-o. Luís arqueou uma sobrancelha. “Bem, não muito eu—”

“Venha comigo”, Niall interrompeu novamente. Luís considerou inventar uma desculpa — alegando alergia à luz solar — mas já havia usado essa desculpa, e resultou em Niall lhe dando um tapa quadrado no rosto de brincadeira. Ele se resignou a seguir sem dizer mais nada.

Quando eles estavam do lado de fora, ele notou que as nuvens escuras haviam tomado conta do céu. Luís assumiu que Niall seria racional e ficaria dentro de casa, mas sua suposição estava errada.

“Vai chover”, murmurou Luís enquanto Niall pegava sua bicicleta, acorrentada à cerca de Luís.

Niall deu de ombros. “Ah, que seja. Vamos, pegue sua bicicleta maldita.”

Luís bufou dramaticamente, mas foi buscar sua própria bicicleta, deixada no chão ao lado da casa. Era enferrujada e velha por falta de uso, mas teria que servir.

Niall esperou ansiosamente, sua excitação o traindo. Enquanto Luís estava ao lado dele, Niall disparou sem aviso. Luís jogou a perna sobre o selim, equilibrando as pontas de seus tênis desgastados no pavimento, e lançou um último olhar para sua casa enquanto ela desaparecia atrás dele.

Luís tentou perguntar a Niall para onde estavam indo, mas ele respondeu apenas com “Você vai ver”. Ele não gostava de surpresas, mas como era Niall quem estava fazendo, não estava muito preocupado.

Ele percebeu para onde estavam indo. O oval não muito longe de sua rua, onde costumavam chutar uma bola quando estavam entediados — algo que ele sentia muita falta.

Niall desmontou e empurrou sua bicicleta em direção ao portão, trancando-a contra a cerca. Luís fez o mesmo. Eles saltaram o portão como sempre faziam, e Luís notou os gols de futebol e a bola no centro do oval. Eles não estavam lá antes. A tinta branca era fresca, cheirando a gases de escape e prado de primavera. A grama era verde vibrante, claramente bem cuidada e recém-cortada.

“Corra para a bola”, Niall sorriu, correndo em direção a ela. O rosto de Luís se iluminou e os dois lutaram pela posse, chutando a bola em direção aos gols um do outro.

Luís saltou no ar, gritando e levantando os braços enquanto chutava a bola para dentro da rede. Ele não sentia tanta euforia desde que as férias haviam começado. Niall havia estado de férias na maior parte delas, deixando-o sozinho e isolado.

“Você sabe que a escola começa novamente na segunda-haja”, Niall informou enquanto eles se sentavam juntos no topo de uma colina com vista para o oval e a cidade. A chuva começou a cair, mas nem Niall nem Luís pareciam se importar.

“Sim”, Luís bufou, uma risada seca escapando de seus lábios. As férias haviam sido solitárias, mas ele não queria voltar para a escola, cercado por adolescentes barulhentos e irritantes. Era um beco sem saída.

“Senti sua falta, amigo”, Niall provocou. Luís envolveu o braço em volta de seu ombro e sorriu. Dizer que sentia falta de Niall seria um eufemismo. Ele havia mandado mensagens de texto constantemente sobre como era chato sem ele.

“Você também, Nialler.”

“Como foram suas férias sem mim?” Niall provocou, arqueando as sobrancelhas.

“Se você considera nunca sair de seu quarto para nada além de comprar mais discos por seis semanas como férias, então foi ótimo.”

“Tenho certeza de que não foi tudo ruim, Tommo”, Niall riu, dando outro abraço em seu ombro. Luís revirou os olhos, mas se inclinou para Niall, olhando para o campo úmido.

Niall sugeriu que eles voltassem para casa, e eles o fizeram, rindo enquanto deixavam rastros de lama no pavimento. Mas ao dobrar uma esquina, Luís esbarrou em alguém que vinha na direção oposta. Ele notou um garoto soltando um gemido e percebeu que havia esbarrado sua bicicleta nele.

“Desculpe, desculpe”, Luís gaguejou. Ele olhou para cima para encontrar grandes olhos verdes como os de um cervo, pele pálida branca como leite, lábios avermelhados pelo frio e uma mandíbula forte. Cachos se espalhava pela testa, enrolados apertados nas orelhas e soltos em outros lugares. Luís não pôde deixar de corar sob o olhar do garoto.

“Não se preocupe, não é nada”, o garoto riu, covinhas se formando em suas bochechas. Luís não sabia o que dizer ao garoto, não sabia por que estava tão intimidado. Ele estava literalmente sem palavras.

“Ei, tudo bem, eu prometo”, o garto disse, mantendo um olhar intenso, fazendo Luís se sentir fraco, forçando-o a lembrar a si mesmo que piscassem — e respirassem.

“Luís e eu temos que ir para casa”, Niall disse. Luís agradeceu a ele silenciosamente por estar alheio. “Eu sou Niall, a propósito.”

“Harry”, o garoto disse, seus olhos piscando entre os dois, sua expressão se tornando quase inexpressiva.

“Até mais”, Luís começou a caminhar, mas seus olhos permaneceram fixos no rosto ilegível de Harry.

“Espero que sim”, Harry lhe deu um pequeno sorriso e se virou, continuando seu caminho.

Niall e Luís ficaram em silêncio enquanto continuavam caminhando de bicicleta, Luís tentando conter o rubor que manchava suas bochechas enquanto Niall permanecia felizmente alheio. Luís muitas vezes desejava que Niall não fosse tão ingênuo.

Luís e Niall pararam do lado de fora da casa de Luís, o ar fresco e as nuvens escuras ficando mais escuras.

“Vou te ver neste fim de semana ou na segunda-feira?” Niall quebrou o silêncio. Luís encolheu os ombros.

“Não sei, eu prefiro não ficar sozinho novamente agora que você está de volta”, Luís explicou. Niall sorriu e deu um empurrãozinho nele de brincadeira.

“Ah, espero que não tenha me sentido muita falta”, Niall provocou, arqueando as sobrancelhas. Luís revirou os olhos, ignorando-o e acenando adeus.

Luís deixou sua bicicleta cair onde estava, não se importando com seu estado. Ele provavelmente pegaria uma nova de qualquer forma. Ele chutou seus sapatos antes de entrar na casa, mentalmente se preparando para a repreensão de sua mãe. Ele não queria lidar com ninguém agora. Ele se sentia tonto, seu peito doendo, como se seus pulmões estivessem em chamas. Ele presumiu que era por falta de exercício.

Luís quase desmaiou em sua cama, sentindo uma dor florescer em seu peito desde que havia saído com Niall. Ele queria descansar. Ele puxou as cobertas sobre si, sem se dar ao trabalho de trocar de roupa, e se aconchegou. Ele não queria se mover, percebendo que sua cabeça estava latejando e a dor se intensificava em seu peito.

Ele fechou os olhos, esperando que o sono o livrasse da dor. Mal sabia ele que era muito mais do que uma febre.