Sombras e cicatrizes

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TAEHYUNG

Outro dia amanheceu, indistinguível do último. Taehyung não se preocupou em rotulá-lo como “normal”, não para si mesmo, certamente não para ninguém. Ele estava simplesmente... acostumado. Acostumado à dor oca, ao medo constante. Acostumado ao peso de uma vida que ele ativamente desejava escapar.

Ele odiava. Um ódio frio e roedor que às vezes desabrochava em um desejo desesperado de esquecimento. Uma esperança perversa de que a raiva de seu pai finalmente cruzaria a linha, que um golpe duro demais seria seu último.

Com um suspiro que tinha gosto de cinzas, ele puxou os joelhos para o peito, envolvendo os braços em torno de suas pernas, e enterrou seu rosto no oco de suas coxas. Semanas se passaram desde que ele tinha provado comida pela última vez, uma vez que ele ousou se aventurar além dos limites sufocantes de sua cama.

Mesmo se ele ousasse sair, ele sabia o preço. Cada excursão significava uma surra, cada passo longe da sala significava dez vezes pior do que ele já suportou.

Seu corpo era uma tela de contusões e cortes, um mapa da fúria de seu pai. Dois dias de alívio se sentiram como uma piada cruel. Sua sorte estava prestes a expirar. O ranger de passos nas escadas anunciou o inevitável. Grumbles, palavras arrastadas – os pronunciamentos guturais do monstro que ele chamou de pai.

Desde a morte de sua mãe, o homem tinha fraturado. O pai amoroso da memória tinha sido substituído por um estranho brutal. Mas Taehyung não o absolveu. Ele não culpou o homem pela violência, apenas pelo peso de seu desespero.

Fazia um ano desde que ela tinha ido embora, e a cada dia que passava, ele engolia o mesmo veneno: auto-culpa. Assim como seu pai, ele se viu pensando: era culpa dele.

Se ele não tivesse implorado a ela por uma carona da prática musical naquele dia, talvez ela estivesse viva. Talvez ela não tivesse sido pega na chuva, não teria se apressado para pegá-lo.

A chuva tinha sido implacável naquela noite. A prática tinha terminado às 17h30, e a ideia de voltar para casa na tempestade tinha sido insuportável. Ela concordou sem hesitação, um pequeno conforto na escuridão.

Mas ela não tinha conseguido. Um carro esmagado, um corpo silencioso e sem vida. Tudo por um filho que se recusou a caminhar para casa na chuva.

Ele deveria culpar o motorista bêbado, ele sabia. Mas ele não podia. O peso de sua culpa era muito pesado. Se ele não tivesse pedido a ela para vir, ela ainda estaria aqui. Todos eles seriam felizes.

Ele ainda estaria na escola, ainda cercado por amigos. Ele não estaria escondendo as nódoas e cicatrizes, não teria sido forçado a desistir.

Mas essa vida tinha desaparecido agora.

Um ano se passou, e com isso, o calor de sua mãe, o amor de seu pai, seu futuro..

Um gemido escapou de seus lábios quando a porta do quarto explodiu para dentro, revelando seu pai, cheirando a álcool e raiva..

Ele esperava um alívio, uma noite de escuridão silenciosa. Mas a esperança era um luxo que ele não podia pagar.

"Você!" O homem rugiu, pulando para a frente, agarrando um punhado de cabelo de Taehyung e abanando a cabeça para cima. Um pequeno gemido escapou.

"Onde está?!"

"Onde está o quê?" Taehyung choramingou, sua voz atada de dor.

"Sabe de uma coisa, seu desgraçado!" Ele rosnou. "Onde está o meu dinheiro?"

"Eu não sei!" Ele gritou, lutando contra o aperto de seu pai. "Eu juro, eu não saí desta sala como você me disse!"

"Eu não acredito em você!" Ele jogou Taehyung no chão.

Taehyung se esforçou para rastejar, mas um pé pesado bateu em sua parte inferior das costas, batendo o ar de seus pulmões..

"Acha que consegues afastar-te de mim?" Ele deu-lhe um pontapé no lado..

"N-Não!" Ele gasou, balançando a cabeça.

"Bom", disse o homem, um sorriso bêbado torcendo os lábios. "Porque você não vai a lugar nenhum." Ele o jogou no chão, cuspindo nele.

"É sua culpa que sua mãe esteja morta, deveria ter sido você no lugar dela", disse ele, agachando-se. Seu polegar e indicador pressionaram o queixo de Taehyung.

Taehyung assentiu, concordando. Deveria ter sido ele. Ele não era digno de ar, de vida.

"Que bom que você concorda", o pai zombou. "Mas isso é muito ruim. Você vai ficar vivo e se arrepender por que ela está morta. Se você pudesse ter acabado de voltar para casa naquele dia, minha linda esposa ainda estaria viva! Agora... Agora eu estou preso com você!" Ele cuspiu em seu rosto, empurrando-o com força para o chão antes de se levantar.

Ele cuspiu nele mais uma vez, e com um último chute, ele bateu a porta fechada.

Naquela noite, Taehyung enrolou-se em uma bola, seu corpo tremendo de medo e tristeza. Lágrimas escorreram por suas bochechas. soluços engasgados presos em sua garganta, sufocados pelo medo de chamar a atenção de seu pai.

Ele desejava uma vida diferente, uma vida livre deste tormento, mas sabia que era culpa dele..

Ele ficava lembrando a si mesmo, todos os dias pelo resto de sua existência miserável. Era culpa dele que sua mãe estivesse morta.

Mas, ao lado desse desejo de esquecimento, um desejo mais sombrio tremia: ver seu pai sofrer. Talvez, se ele não fosse tão covarde, ele pudesse matar seu próprio pai.

Mas ele não podia. Nem mesmo isso.

Mesmo depois de cada golpe, cada maldição, um pedaço de esperança permaneceu. Uma crença frágil de que seu pai poderia voltar ao seu antigo eu, pode se arrepender de suas ações.

Ele sabia que isso nunca aconteceria..

Ele estava condenado.

Talvez, se o pai se tivesse ido embora, as coisas pudessem melhorar..

Mas ele era Kim Taehyung..

Sua vida nunca seria fácil.