A Sombra do Imperador

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O ar tinha gosto de cinza e arrependimento. Jungkook sequer se dava ao trabalho de respirá-lo; ele já havia se acostumado com o fedor das cidades humanas, o calor patético e fugaz que elas irradiavam. Ele observava-os rastejar lá embaixo, pequenas formigas obcecadas por suas vidas insignificantes. Eles não o viam, não realmente. Ainda não. Sentiam o peso de seu poder, o frio que se agarrava às sombras, mas atribuíam isso à tempestade que se aproximava. Que assim fosse. Ele preferia o medo.

Ele não estava ali para admirar a vista. Jungkook havia convocado seu tenente, Yoongi, para a varanda mais alta com vista para a metrópole em expansão. A lua era uma lasca de gelo e as luzes da cidade pulsavam como um batimento cardíaco agonizante. Yoongi não havia dito uma palavra desde que chegou, seu olhar fixo no smog rodopiante. Jungkook achou o silêncio…tolerável. Era um luxo raro, esses momentos sem a necessidade constante de lembrar à sua corte sobre sua dominância.

“Os lobisomens estão se tornando mais ousados”, finalmente rosnou Jungkook, sua voz um tremor grave que vibrou na espinha de Yoongi. “Eles têm invadido assentamentos perto da fronteira. Vilarejos pequenos, principalmente. Mas eles estão nos testando.”

Yoongi finalmente olhou para ele, sua expressão ilegível. “Eles sentem fraqueza, Imperador. O reino humano está se fragmentando. Os mortais estão lutando entre si.”

“Deixem que se destruam”, Jungkook retorceu os lábios em um sorriso cruel. “É um desperdício de nossos recursos nos envolvermos em suas mesquinhas brigas.”

Ele se apoiou no parapeito frio de pedra, observando um lampejo de movimento abaixo. Uma figura solitária, apressada pelas ruas encharcadas pela chuva. Um cardiologista, relataram suas fontes. Um curandeiro. Um humano que remendava corpos quebrados, alheio à escuridão que prosperava nas sombras.

“Encontre-me um nome”, disse Jungkook, sua voz perigosamente suave. “Um médico. Alguém com mãos habilidosas o suficiente para consertar ossos fraturados, mas não fortes o bastante para resistir ao meu toque.”

Os olhos de Yoongi se estreitaram. “Você está caçando, não observando.”

Jungkook sequer se deu ao trabalho de negar. “Estou me preparando. Chegará a hora em que os lobisomens nos forçarão a agir. Quando tivermos que lembrá-los do que significa invadir nosso território.” Ele fez uma pausa, saboreando a antecipação. “E quando essa hora chegar, eu quero um brinquedo que entenda o valor da vida humana. Alguém que grite por misericórdia quando eu a extinguir.”

Yoongi não se encolheu. Ele havia visto coisas demais para ser chocado pela depravação de Jungkook. Mas um lampejo de algo – nojo? – cruzou seu rosto. Ele sabia que a crueldade de Jungkook não era aleatória. Era uma performance calculada, projetada para inspirar terror tanto em seus seguidores quanto em seus inimigos.

“A corte de Namjoon chegará em breve”, declarou Yoongi. “Eles estão ansiosos para discutir a aliança contra o bando do Norte.”

Jungkook acenou com uma mão dispensiva. “Deixe Namjoon se preocupar com estratégia. Eu lido com os lobos. Sempre lidei.” Ele voltou o olhar para a cidade abaixo, seus olhos demorando-se nas luzes bruxuleantes. “Mas primeiro… eu quero ver esse médico. Traga-me seu nome. Seu rosto. E seu pulso.”

A chuva aumentou, lavando a cidade em uma torrente de escuridão. Jungkook não se moveu, não piscou. Ele era um predador esperando por sua presa. E hoje à noite, ele sentiu o cheiro de algo novo – uma beleza frágil e desafiadora, escondida sob camadas de compaixão humana. Ele iria gostar de quebrá-la.

♧ FIM DO CAPÍTULO ♧