Denton Cross acordou de um salto, os resquícios do sonho ainda o agarrando como teias de aranha. O quarto estava envolto na escuridão, apenas iluminado pelo zumbido distante da vida noturna de Black Hollow — uma sinfonia suave de cigarros e o farfalhar das folhas contra a vidraça.
Ele piscou para o escuro, com o coração batendo forte por causa do fantasma que o perseguiu durante o sono. Sua mão encontrou o metal frio de seu abajur e acendeu-o. A luz repentina lançou sombras compridas e dançantes sobre o papel de parede desbotado, revelando nada fora do lugar. No entanto, uma presença perturbadora persistia.
Seu olhar se desviou para o quarto de Ellie do outro lado da casa. O silêncio reinava, quebrado apenas pelo seu hálito suave. Ele esforçou-se a ouvir, como se seus sonhos pudessem sussurrar segredos através das paredes finas. A casa rangia ao redor dele, adentrando a noite como um velho se sentando em uma cadeira.
Denton se levantou, seus pés descalços batendo nos parapeitos frios do chão de madeira. Ele agarrou o roupão, o tecido terciário áspero contra sua pele, e caminhou com os pés descalços pelo corredor. A porta da Ellie estava entreaberta, derramando luz lunar sobre o tapete gasto. Ele a empurrou para abrir mais, entrando.
O quarto dela cheirava a giz e livros de histórias velhos. Denton se aproximou da cama dela, observando-a dormir — o peito subindo e descendo suavemente sob os cobertores. O travesseiro ao lado estava ligeiramente desalinhado, uma pequena montanha perturbando sua suavidade. Ele estendeu a mão para ajustá-lo, mas congelou.
Enfiado na dobra onde a cabeça de Ellie jazia havia algo duro e frio. Denton hesitou antes de tirá-lo — um dente. Não era da Ellie; todos os dentes dela estavam em sua boca dormindo. Este estava menor, com uma borda quebrada como um pedacinho de porcelana partida. Ele o virou entre os dedos, sentiu o estômago se revirar.
Ele recuou para longe da cama, sua mente acelerada. Um brinquedo? Uma piada morbosa? Mas quem colocaria isso aqui? E por quê? Seus olhos percorreram o quarto, observando o caos familiar de seus desenhos colados nas paredes, os livros empilhados descuidadamente no chão. Nada parecia estranho exceto pelo dente.
Um barulho repentino do andar de baixo o sacudiu. A cabeça de Denton se virou bruscamente para o som — algo pesado se movendo na cozinha. Seu pulso acelerou enquanto ele saía com cuidado do quarto da Ellie, deixando a porta entreaberta. As escadas rangeram sob seu peso quando descia em direção à escuridão.
A cozinha estava vazia quando ele chegou lá, mas a porta dos fundos estava entreaberta, lançando um fio de luz da lua sobre o linóleo. Denton se aproximou cautelosamente, com o coração martelo em seus ouvidos. Ele empurrou a porta larga, revelando a varanda e a noite além. Nada se movia exceto as árvores balançando suavemente sob o olhar prateado da lua.
Ele saiu para fora, o ar frio da noite cortando sua pele. Um leve farfalhar veio do canto das matas — as mesmas matas onde ele havia brincado de criança, onde tinha caçado sombras e lutado contra inimigos imaginários. O pelos na nuca se eriçaram. Ele deu um passo à frente, então parou.
A floresta sussurrava segredos que ele não conseguia entender direito. Denton estremeceu, recuando para o abraço caloroso da cozinha. Trancou a porta atrás de si e se encostou nela como se fosse se barricar contra aquilo que corria pelas trevas lá fora.
Denton olhou para o dente ainda segurado em sua mão. Ele o colocou sobre o balcão, seu olhar pego pela pequena imperfeição — a borda quebrada que parecia zombar dele. Quem tinha colocado isso aqui? E por quê?
O relógio acima da panela marcava os segundos, cada um ecoando como uma contagem regressiva. A mente de Denton girava com perguntas sem resposta. Ele pegou sua jaqueta no cabideiro perto da porta e vestiu-a sobre o roupão, enfiando os pés nas botas. Uma respiração profunda lhe calmau enquanto novamente trancava a porta.
O ar da noite estava mais frio agora, a lua mais alta no céu. Denton caminhava em direção à cidade, seus passos ecoando pelas ruas silenciosas. As casas estavam escuras e silenciosas, suas janelas como olhos brancos o encarando de volta. Só o brilho fraco dos faróis distantes guiava seu caminho.
Ele passou pela velha fábrica de lençóis, suas vigas enferrujadas rangendo suavemente na brisa. Memórias se agitaram dentro dele — risos dos verões passados, o eco das gargalhadas de Ellie quando ela era pequena demais para acreditar em monstros debaixo da cama. Agora essas mesmas sombras pareciam assombrar com intenção maligna.
O restaurante se erguia à frente, um sinal de luz piscando fracamente sobre a porta. Denton entrou empurrando, o sino tilintando suavemente para anunciar sua chegada. O lugar estava quase vazio, exceto por alguns clientes da madrugada aglomerados em cabines. As conversas ficaram silenciosas quando ele entrou, os olhares se voltando para ele com uma mistura de curiosidade e cautela.
Martha, dona do restaurante, ergueu os olhos da barra de canto enquanto limpava o balcão. Sua expressão se fechou ao vê-lo. —Denton —acolheu friamente—. Tarde?
“Apenas precisava de um café.” Ele forçou um sorriso, tentando ignorar a tensão repentina no ar.
Ela lhe serviu uma xícara sem comentários, deslizando-a pelo balcão. Denton envolveu as mãos na tigela quente, sentindo o calor penetrar em seus dedos frios.
“Ouvi algo estranho esta noite”, ele disse casualmente, mantendo a voz baixa. “Sobre um garoto acordando com uma dentes faltando”.
A mão de Martha parou no meio da limpeza. Ela o olhou fixamente antes de retomar sua tarefa. —Rumoros —murmurou—. As imaginações das crianças fogem ao controle aqui fora.
—Mas você também ouviu? —Denton insistiu, inclinando-se um pouco mais.
Um grupo de homens em uma cabine próxima trocou olhares, suas vozes baixando para sussurros conspiratórios. Denton podia sentir seus olhares nele como pesos físicos.
Martha se inclinou mais perto, sua voz mal passando de um sussurro. —Tem fofocas, sim. Sobre algo que arranca dentes dos bebês dormindo.
O aperto de Denton na caneca se intensificou. "Tirando eles? Como roubando?"
Ela deu de ombros sem compromisso. —Alguns dizem que são apenas histórias. Outros… Ela deixou a frase em suspensão, desviando o olhar.
—Outros o quê? —perguntou Denton, com o coração batendo forte.
Martha encarou-o com firmeza. —Outros pensam que é algo mais. Algo… não certo.
O quarto parecia prendê-los no ar ao redor deles. Os poucos restantes clientes se remexiam desconfortavelmente em seus lugares, evitando os olhos de Denton. Ele podia sentir o submundo do medo, as acusações não ditas pairando apenas abaixo da superfície.
Ele pensou em Ellie lá em cima na sua cama, alheia aos sussurros que ecoavam por Black Hollow. Um arrepio percorreu-lhe a espinha. Isso não era apenas fofoca; era algo mais escuro e insidioso.
A voz de Martha interrompeu seus pensamentos. —Você deveria ficar fora disso, Denton. Não é problema seu.
Denton olhou para ela com intensidade. —Se envolve crianças...
—É —ela o interrompeu—. E é exatamente por isso que você deve manter Ellie segura e deixar os adultos lidarem com isso.
A implicação pairava no ar com peso. Denton sentiu uma surja de raiva familiar, temperada por um mal-estar crescente. Pensou na dentição em seu balcão da cozinha, na borda rachada como um dedo acusador.
Ele se afastou do balcão, deixando o café meio queimado para trás. —Obrigado pela informação —murmurou, já indo em direção à porta.
—Denton —a voz de Martha o fez parar—. Cuidado.
O ar noturno estava ainda mais frio agora, as ruas estranhamente silenciosas como se respirassem em suspiro. Denton voltou para casa, sua mente acelerada com perguntas sem resposta e um pavor corroendo-o. As casas pairavam mais sombrias, suas sombras se estendiam como dedos acusadores.
Quando se aproximou da porta da frente, notou algo branco amontoado debaixo do tapete — um pequeno envelope. Ele hesitou antes de pegá-lo, guardando-o no bolso sem abri-lo. Sua mão tremeu levemente enquanto ele trancava a porta e entrava.
A casa estava silenciosa, exceto pelo tique-taque do relógio no corredor. Denton foi até o quarto de Ellie, parando na porta dela. Ela dormia tranquilamente, com a respiração firme e regular. Ele observou-a por um momento antes de se retirar para seu próprio quarto.
Sentado na beira da cama, ele puxou o envelope. O papel era barato, a escrita rabiscada em traços apressados e quase frenéticos. Três palavras encaravam para ele:
VOCÊ A TOMOU PRIMEIRO
O sangue de Denton gelou. Ele amarrou o bilhete, sua mente girando. Quem escreveria algo assim? E o que significava?
Ele se levantou abruptamente, andando de um lado para o outro pelo quarto como um animal preso. As paredes pareciam se fechar ao seu redor, as sombras escurecessem demais e profundas. Denton tropeçou até o banheiro, jogando água fria no rosto. Seu reflexo o encarava — bochechas magras, olhos assombrados por lembranças que ele não conseguia escapar.
De volta ao quarto, ele vasculhou o baú até encontrar uma foto antiga guardada entre papéis esquecidos. Uma Ellie mais jovem sorria para ele com os dentes da frente faltando em um sorriso de gengivite. Ao lado dela estava Denton, com o braço em volta dos ombros dela e rindo na câmera. Era antes — o acidente, as sussurrações, a queda do pedestal.
Ele percorreu as bordas da foto com o dedo, o papel desgastado pelo tempo e pela manipulação. Aqueles dias pareciam outra vida — um período mais feliz e simples quando Black Hollow não lhe virou as costas.
Denton jogou a fotografia na cama e passou a mão pelo cabelo. Ele não podia voltar para aquele tempo, mas poderia proteger Ellie agora. Isso era o que importava.
Um leve rangido vindo do andar de baixo o assustou. Denton congelou, ouvindo atentamente. A casa se acalmava ao seu redor, sua sinfonia noturna habitual de gemidos e sussurros. Mas lá estava novamente — um passo suave subindo as escadas.
Seu coração batia forte enquanto ele pegava um livro pesado da mesa de cabeceira, agarrando-o como uma arma. Ele se esgueirou até sua porta e observou o corredor escuro. Nada se movia além das sombras que dançavam sob a lâmina de luz da lua filtrando pela janela.
Denton saiu, seus pés descalços silenciosos no chão frio das tábuas. As escadas se erguiam à sua frente, cada degrau parecia ecoar como um tambor em seu peito. Ele descia devagar, segurando o livro com força.
No fundo, ele parou, examinando a sala de estar. Vazia. Também estava vazia a cozinha — até que viu: a porta do quarto da Ellie entreaberta. Um brilho suave escorria por dentro, lançando sombras sinistras nas paredes.
Ele apertou o livro enquanto se aproximava, com a respiração ofegante. Ele empurrou a porta para abrir mais um pouco, revelando a forma adormecida de Ellie banhada pela luz da lua. Ela se mexeu levemente, mas não acordou. Algo mais chamou sua atenção — uma pequena figura sentada à mesa dela, de costas para ele.
O coração de Denton saltou na garganta. A figura era pequena, quase infantil, curvada sobre algo em suas mãos. Ele deu um passo à frente, os nós dos dedos brancos ao redor do livro.
—Quem é você? —ele conseguiu engasgar, sua voz mal passando de um sussurro.
A figura se encolheu mas não virou. Em vez disso, ergueu o que estava agarrando — um dente, reluzindo de forma pálida sob a luz da lua. A respiração de Denton ficou presa quando reconheceu a borda rachada — o dente solto de Ellie, aquele que vinha balançando há dias.
—Por favor —sussurrou ele, dando outro passo à frente—. Não machuque ela.
A figura se virou lentamente, revelando um rosto obscurecido por sombras e cabelo desgrenhado. Seus olhos encontraram os de Denton brevemente antes de fugirem, cheios de uma emoção que ele não conseguia nomear — uma mistura de medo, tristeza e saudade.
O aperto de Denton no livro se aliviou levemente quando o entendimento tomou conta dele. Isso não era algum monstro; era algo completamente diferente — algo quebrado, perdido.
Ellie se mexeu novamente, seus cílios tremendo contra suas bochechas. A figura reagiu instantaneamente, derretendo-se nas sombras e desaparecendo pela janela aberta. Denton avançou com força mas foi tarde demais. Tudo o que restava era o dente, deitado sobre a mesa como uma acusação.
Ele o pegou com as mãos trêmulas. O dente solto de Ellie — seguro por enquanto. Mas por quanto tempo? Ele olhou pela janela para a noite, sentindo um frio mais profundo que qualquer vento invernal.
Denton voltou para o quarto, os acontecimentos da noite rodando em sua mente. Ele sentou na beira da cama, agarrando o dente de Ellie como um amuleto. A casa estava silenciosa novamente, mas o silêncio parecia carregado, como se estivesse esperando algo mais que o fizesse desmoronar.
Ele olhou para o bilhete amassado na mesa de cabeceira, suas palavras ecoando em seus pensamentos: VOCÊ A TOMOU PRIMEIRO. O que isso significava? E quem tinha escrito?
O olhar de Denton caiu sobre a fotografia de Ellie, seu sorriso com dentes faltantes um lembrete crassante da inocência perdida. Ele percorreu as bordas novamente, sentindo o peso da responsabilidade se instalando em sua alma como uma túmulo.
Proteger Ellie era sua prioridade agora. Seja o que for essa criatura, seja o que quer que ela quisesse, ele a manteria segura. Mesmo que isso significasse confrontar os demônios de seu passado — mesmo que significasse encarar os segredos mais sombrios do Vale Negro frontalmente.
Sua determinação se endureceu enquanto guardava o dente de Ellie no bolso ao lado do quebrado anteriormente. Dois dentes —um par sinistro— e uma promessa de desvendar esse pesadelo, um fato por vez. O que quer que habitasse nas sombras de Black Hollow, Denton Cross enfrentaria. Por Ellie.