Mudança Lunar

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O asfalto se tornou um borrão sob meus pés, uma corrida desesperada em direção ao isolamento. Momentos antes, risadas e conversas me cercavam, amigos alheios à atração lunar. Então, a queima familiar começou, o sinal revelador da transformação. Lua cheia. Eu havia esquecido.

Uma colisão — uma mulher assustada pela minha pressa — enviou uma onda de pânico através de mim. A transformação já estava em andamento, meu rosto se esticando, o focinho começando a se projetar para fora. Eu ainda estava na rua, vulnerável, preso entre humano e lobo. Desviei bruscamente para um beco, quase derrubando uma lata de lixo tombada. Um gemido escapou dos meus lábios, abafado instantaneamente pelas minhas mãos, rezando para não ter despertado ninguém nas proximidades.

Agora, a verdadeira agonia começou. Meus joelhos se dobraram para dentro, uma dor lancinante irradiando para cima pelas minhas pernas. As mãos encolheram, os ossos se remodelando em patas, as unhas se estendendo para arranhar o concreto áspero. Meu cóccix ardeu com um crescimento agonizante, um clube pesado e peludo chicoteando no espaço estreito. A última onda de mudança me atingiu, um grito cru e animalesco rasgando minha garganta. O controle escorregou, substituído pelo instinto. Restava apenas suportar, esperar que a lua minguasse, permitir que a transformação se completasse.

A dor diminuiu para uma dor surda. Desabei contra a parede de tijolos, o beco exalando um odor de decomposição e arrependimento. Eu estava preso. Preso pela lua, pelo meu próprio corpo, pela besta interior. A única certeza era a inevitabilidade da próxima lua cheia, e a preparação que ela exigiria. O ciclo se repetiria, uma maldição lunar gravada em meu próprio ser.