Abandonado

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|ETHAN’S POV| - Doze Anos Atrás -

As patas de Ethan ardiam de exaustão, cada passo um protesto doloroso enquanto ele lutava para acompanhar sua mãe. Ela disparou em direção a uma matilha vizinha, totalmente indiferente ao filho de seis anos se esforçando para seguir.

Eles corriam porque sua matilha estava sob ataque — renegados liberando uma substância estranha no ar. A substância induzia à loucura, transformando membros da matilha uns contra os outros. Amigos, familiares, até mesmo companheiros se tornavam inimigos instantâneos.

O Alfa havia ordenado que todos que ainda estavam lúcidos fugissem para a matilha vizinha em busca de segurança enquanto ele reunia ajuda e restaurava a ordem. Para Ethan, a jornada era agonizante. Sua mãe não era conhecida pela paciência, nem pela bondade.

A maioria presumia que o primeiro instinto de uma mãe era proteger seus filhotes. Não essa. Ela não notou seus passos cambaleantes, seu risco de lesão, a ameaça iminente de ataques de renegados. Ela simplesmente não se importava. Sua única preocupação era sua própria sobrevivência.

“P-Poderia diminuir a velocidade, por favor?” Ethan soluçou através de sua ligação mental.

“Não,” ela rosnou, acelerando o ritmo.

“P-Por favor, minhas patas doem,” ele implorou, desesperação permeando sua voz.

“Eu. Disse. Não. Ethan.” Ela rosnou, seu tom carregado de impaciência. “Se você quer diminuir o ritmo, ótimo. Eu não esperarei.” Ela declarou friamente, sem sequer se dar o trabalho de olhar para trás.

“M-Por que não?” A voz de Ethan era quase inaudível.

“Porque eu disse. Não vou arriscar minha vida por um peso de mão como você!” Ela cuspiu, suas palavras cortando como lascas de gelo.

O silêncio se abateu, quebrado apenas pelo ritmo compassado das patas deles contra a terra. Ethan ousou perguntar, sua voz pequena e trêmula: “M-Por que você está sendo tão cruel comigo?”

“Pare de me importunar com suas malditas perguntas, Ethan.” Ela sibilou, seu tom venenoso.

“M-Mas—” Antes que ele pudesse terminar, sua mãe parou abruptamente, fazendo Ethan tropeçar em suas pernas.

“Sabe o que, Ethan? Eu vou te deixar aqui.” Ela declarou, empurrando-o para o chão com um empurrão cruel do focinho.

“O quê? M-Por quê, Mãe?” Ethan choramingou, tentando se levantar, mas foi empurrado para baixo novamente.

“Porque você está me atrasando!” Ela rugiu, sua fúria uma onda palpável. “Eu já estaria lá se não fosse por você!”

“P-Por favor, não me deixe,” Ethan implorou, lágrimas embaçando sua visão.

“Cale a boca, seu pirralho.” A mãe de Ethan zombou. “Se eu te ver me seguindo, eu te mato na hora.” Ela prometeu, seus olhos ardendo de malícia fria antes de correr em direção ao bando distante, deixando seu filho sozinho e indefeso.

As orelhas e a cauda de Ethan caíram enquanto ele observava sua mãe desaparecer. Ele se agarrou à esperança desesperada de que isso fosse uma brincadeira cruel, um teste que ela passaria e eles se reuniriam. Mas ela nunca voltou.

A noite caiu, e Ethan não se moveu, paralisado pelo medo de predadores ou de se perder. Ele permaneceu enraizado no lugar, rezando pelo retorno de sua mãe.

Conforme ele estava sentado ali, o cansaço puxou suas pálpebras para baixo. “Deixe-me apenas descansar os olhos por um momento.” Ele murmurou. E, assim, Ethan adormeceu em um sono cheio de sonhos, cheio das fantasias inocentes de um filhote de seis anos.

Uma hora se passou, e Ethan foi acordado bruscamente pelo farfalhar das folhas.

“Mamãe?” Ele perguntou, sua voz esperançosa.

Ele soltou um ganho em resposta a quatro lobos, emergindo das sombras para o cercar. Ele choramingou, esperando que eles o ignorassem, um filhote pequeno e indefeso.

Mas eles não se importavam.

O líder investiu, prendendo suas mandíbulas na nuca de Ethan e sacudindo a cabeça violentamente. Ethan gritou enquanto seu pescoço esticava, a pele rasgando enquanto o sangue escorria pela ferida. O lobo soltou a presa, enviando Ethan voando contra uma árvore, então desabando no chão. Um gemido hesitante escapou de seus lábios enquanto tentava se levantar, apenas para desmoronar novamente.

Ele olhou para cima para ver o lobo dominante bufar em diversão antes de cravar os dentes na garganta de Ethan, bloqueando suas vias aéreas.

Ethan choramingou, arranhando fracamente as mandíbulas, mas seu atacante apenas apertou o aperto. Sangue jorrou da ferida. Sua visão ficou turva, pontos negros girando diante de seus olhos. Justo quando estava prestes a sucumbir à escuridão, foi derrubado por outro lobo.

Ele tombou da boca do atacante e caiu com um baque surdo. Ele piscou, limpando a visão para ver o filho do Alpha, ofegante e coberto de sangue.

“Sinto muito, filhote”, ofegou o filho do Alpha. “Dói agora, mas vou te consertar quando estivermos seguros.” Ele prometeu enquanto corria com Ethan na boca, perseguido pelos quatro lobos renegados. Foi inútil. Os renegados eram adultos enquanto o filho do Alpha era apenas um adolescente.

Um latido comandante ecoou pela floresta. Dois renegados investiram nas patas traseiras do filho do Alpha, fazendo-o tombar. Ethan deslizou na terra enquanto caía da boca do filho do Alpha.

“Corra!” O filho do Alpha ordenou.

Ethan obedeceu, correndo em direção à beira de um penhasco. Ele olhou para trás para ver os dois renegados se aproximando. Ele era apenas um filhote, e eles estavam diminuindo a distância. Ele pensou em desistir, esperando uma morte rápida, mas antes que pudesse decidir, ele alcançou o penhasco.

Ele engoliu em seco, olhando para a queda vertiginosa antes da água abaixo. Ele deu um passo para trás lentamente, então congelou quando seus perseguidores se aproximaram.

Ethan tinha duas escolhas: ser dilacerado ou se afogar.

Ele escolheu o penhasco.

Ele se lançou ao ar, ignorando a tentativa dos renegados de agarrar sua nuca. Ele caiu, observando a água correr para encontrá-lo.

O impacto enviou um choque através de seu corpo. Ele estava sem peso, à deriva com a corrente para o desconhecido.

- Tempo Presente -

Grrr~!"

Ethan resmungou, com o estômago roendo de fome. Fraco e faminto, ele precisava de força para caçar, mas a ideia parecia insuperável."

Já fazia uma semana desde sua última refeição — um mísero rato. Normalmente, ele vasculhava carcaças ou caçava coelhos, mas as caças eram escassas, e ele não via nenhum animal que pudesse pegar há dias."

"Estou tão faminto!" A voz dentro da cabeça de Ethan reclamou. "Quando você vai caçar?""

"Quando eu tiver vontade," Ethan retrucou."

"Levante e cace, Ethan!" A voz estalou. "Estou morrendo de fome!"

"Certo. Certo. Certo." Ethan revirou os olhos antes de se levantar e farejar o ar em busca de presas."

Ele não percebia que a voz era de seu lobo, um remanescente de uma vida que ele havia esquecido há muito tempo. Ele havia se convencido de que estava enlouquecendo de solidão e criado uma voz para preencher o vazio."

Já faziam doze anos desde que sua mãe o abandonou, doze anos desde que ele se afastou de sua matilha. Com o tempo, ele havia esquecido seu lado humano, perdido no ciclo perpétuo de sobrevivência. Ele até havia esquecido sua mãe aos dez anos, consumido pela necessidade de comer e sobreviver.

“Ei. Sinto um riacho à frente,” disse Ethan. “Talvez possamos pescar alguns peixes.”

“Peixe soa ótimo!” exclamou a voz. “Em frente, camponês!”

“Quem disse que você era meu camponês?” perguntou Ethan.

“Eu disse, obviamente,” retrucou a voz. “Agora cale a boca, camponês de mente pequena! Eu preciso me concentrar!”

“Qual é essa ‘tarefa importante’ sua?” perguntou Ethan, divertido.

“Enchê-lo até morrermos, é claro!” exclamou a voz com alegria maníaca.

“.......Certo.”

Ethan continuou a conversar com a voz enquanto se aproximavam do riacho. Logo, viram um cardume de peixes nadando por ali.

“Sim! Tem peixe!” A voz exclamou. “Jantar fácil.”

“É,” Ethan concordou.

Ele não era um caçador habilidoso. Observara outros caçando, mas sempre falhara em replicar o sucesso deles. Passara alguns dias dolorosos com cervos pisando nele.

Ele sacudiu a memória e se concentrou na tarefa em mãos. Passou a mão na água, esperando fisgar um peixe com a boca. Mergulhou a cabeça, provando apenas água. Suspirou frustrado e decidiu tentar mais uma vez.

Seus olhos se fixaram em um peixe nadando por ali. Ele congelou, imóvel como uma pedra. Assim que o peixe nadou dentro do alcance, Ethan mergulhou a cabeça na água e fechou a boca em torno dele.

“Consegui!” Ethan exclamou, mas sua alegria foi interrompida por um som alto.

Grrr~!

“........Era seu estômago?” a voz perguntou.

“Não,” Ethan disse, confuso. Ele não havia sentido o estômago se mover.

Ele estava prestes a ignorar quando viu dois ursos enormes cambaleando para dentro da água, começando a pescar.

“Ei! Eles estão espantando a comida!” a voz reclamou enquanto os peixes se dispersavam. “Faça alguma coisa, Ethan!”

“Você quer que eu fique na frente de dois URSO MUITO GRANDES que também têm dentes MUITO GRANDES?” Ethan perguntou incrédulo.

“Ora, claro,” a voz retrucou.

“Não vou morrer hoje,” Ethan murmurou, virando para fugir.

Já era tarde demais. Ele esbarrou em um dos ursos.

“Tarde demais”, zombou a voz.

O urso rosnou para Ethan, que estava dividido entre se submeter e obedecer à ordem da voz de rosnar de volta. Ele obedeceu.

Ele soltou um gemido patético, ganhando um olhar zombeteiro dos ursos. Os ursos responderam com um rosnado que abalou o chão.

“O que fazemos agora?” Ethan entrou em pânico.

“Hum…talvez devêssemos considerar correr!” Sem hesitação, Ethan disparou para a floresta, com os ursos em seu encalço.

“Toda a culpa é sua, sabia?” Ethan retrucou.

“É.”