A sensação se instala, uma dor vazia que se acomoda nas profundezas. Não é antecipação, não exatamente. É… vazio. Uma certeza silenciosa de que este momento, enterrado entre os travesseiros, espelha os momentos invisíveis de outros. Estarão eles também, traçando os contornos da solidão?
Por que se dar ao trabalho, me pergunto, com a pretensão de se importar. Importar com estranhos, com suas mágoas enterradas ou corações partidos, com as justificativas oferecidas por aqueles que infligem crueldade. É tudo barulho, um vórtice giratório de possibilidades.
Me surpreendo com a rapidez com que tudo me vem à mente. Uma avalanche de pensamentos, uma espiral de excessiva reflexão que não faz nada além de exaurir. É um hábito inútil, uma tendência autodestrutiva. E, no entanto, aqui estou eu, espiralando em direção à inevitável conclusão: vou tirar a própria vida.
Forço-me a sentar, os pés aterrissando no tapete vermelho gasto. Meus chinelos estampados com cachorros parecem macios sob meu peso. A luz está acesa, uma negligência descuidada. Droga. Sete hora e seis da manhã. A aula começa às oito. Hora de me mover.
A rotina do banheiro é automática. Sabonete com aroma de rosa, um luxo remanescente da minha mãe. Pasta de dente, desodorante, um escudo contra o mundo. O ritual é aterrador, um pequeno ato de desafio contra o vazio.
Puxo uma camiseta listrada preta e cinza, enfiando-a em jeans rosa. Um casaco com zíper branco e Vans verde-florestal completam o uniforme. É uma rebelião confortável.
“Panquecas estão quentes e fofas, vocês deveriam colocar o maple.” A voz da minha mãe flutua da cozinha.
“Estou colocando chocolate.” Eu respondo.
“Muito doce, querida.” Ela repreende gentilmente.
“Você deveria usar camisetas na escola”, minha irmã, Chloe, reclama.
“Jacques, Chloe tem razão. Essas são inapropriadas para a escola.” Minha mãe concorda, tomando o lado de Chloe.
“Não vou mudar. Provavelmente da próxima vez.” Eu murmuro.
“Coma tudo e pode ir para a escola agora.”
Termino minhas panquacas, pego as chaves e vou para o carro. Um Beetle azul-água, uma relíquia vintage salva pelos meus pais. Eu amo o carro, o charme desvanecido de sua idade. Ligo-o, uma onda familiar de energia.
Dirigindo para a escola, reconheço a verdade: não tenho amigos. Sou um introvertido, um fantasma nos corredores. Óculos, uma dispersão de espinhas…aceitei o julgamento. Pele clara, uma altura acima da média e um corpo que aprendi a ignorar.
Escapo para jogos de vídeo, me perco em livros, edito fotos para um feed do Instagram que tem 694 mil seguidores. É uma vida tranquila, uma fonte de renda de acordos de marca e patrocínios. Eu amo a edição, o design gráfico, o poder da mídia social. Eu amo ser uma influenciadora, mas nunca revelo meu rosto. A ironia não se perde em ninguém.
Nós vivemos em uma casa suburbana, confortável o suficiente para quatro pessoas. Wildredfort High é minha prisão, e eu sou gay. Um segredo que eu mantenho enterrado, mesmo nesta cidade homofóbica. Eu não quero ser vista, ainda não.
Observo os atletas, sua arrogância mascarando suas inseguranças. Talvez, algum dia, eu encontre alguém que me veja, que me aceite por quem eu sou. Alguém que entenda a desesperança silenciosa que alimenta essa dor vazia.