O aroma familiar de papel velho e couro preenchia a biblioteca. Estava perdida entre as páginas de *Oliver Twist*, um ritual silencioso dos sábados. Hoje, porém, parecia… diferente. Jason estava estirado no sofá, rolando o celular, uma anomalia naquele espaço. Ele sempre zombava de livros, descartando-os como “coisa de nerd”. Vê-lo ali, em meio às estantes, era genuinamente estranho.
Estiquei as pernas, deixando-as repousar sobre o colo de Jason. Ele ficou ligeiramente corado, um tom de rosa raro que suavizava suas feições geralmente endurecidas. Voltei à leitura, contente com aquela companhia silenciosa.
Então, um formigamento. Uma sensação de algo rastejando no meu braço. Olhei para baixo, e um grito rasgou minha garganta. Arremessei o livro – as obras completas de Dickens, para piorar – direto em Jason, e então sacudi o braço violentamente, tentando desalojar qualquer coisa que estivesse ali.
Jason explodiu em gargalhadas, recuperando-se do impacto do livro no rosto. Estava claramente gostando do meu pânico.
Continuei a sacudir o braço, desesperada para sacudir qualquer coisa que tivesse caído sobre mim. Finalmente, com um último sacudo desesperado, a aranha se lançou para fora e aterrissou na parede, agarrada ali, como se julgasse nossa reação.
Ainda tremia, o coração martelando, enquanto Jason ainda ria, um som estrondoso que ecoava pela sala.
“Jason, atira nele!” Exigi, a voz trêmula.
“O quê?! Não, por quê?” Perguntou, sorrindo.
“Você é o super-herói! Me salve da aranha, por favor,” implorei, a voz um misto de medo e frustração.
“Eu não vou atirar na aranha,” ele fez uma pausa, um brilho travesso nos olhos. “Eu sou seu donzelo em perigo?”
“O que isso significa?” Perguntei, ainda fixada na aranha na parede.
“Porque se você for,” ele explicou, segurando meu rosto em suas mãos, aproximando os lábios perigosamente dos meus, “isso significa que eu ganho um beijo.”
Um sorriso brincalhão puxou seus lábios. Antes que eu pudesse processar totalmente a implicação, empurrei-o para longe, voltando a olhar para onde a aranha havia aterrissado.
“Ela sumiu!” Exclamei, um alívio inundando-me.
Saltei dos pés e saí correndo da sala, gritando “Aranha!” enquanto corria.
“E o meu beijo?!” Jason gritou atrás de mim.
“Vocês dois estavam prestes a se beijar?!” Dick perguntou, derrubando sua tigela de sopa de tomate com um respingo estrondoso. O líquido vermelho ameaçava manchar o tapete. A cena toda era absurda, mas de alguma forma perfeitamente característica para aquela casa.