Félix encarou Leo pela mesa empoeirada, seus olhos se estreitando enquanto ele recostava-se na cadeira. A luz fraca da cafeteria projetava sombras compridas, realçando a tensão que pairava pesadamente entre eles. Os dedos de Félix tamborilavam impacientemente sobre a superfície de madeira desgastada, um tique-taque rítmico ecoando os segundos que passavam.
“Você está brincando com fogo, Leo”, começou Felix, sua voz baixa mas afiada como uma lâmina. “Wren não é um quebra-cabeça para você resolver. Ela é uma pessoa e está sofrendo”.
Leo encarou-o com firmeza, sentindo o peso das palavras de Felix. Ele sabia que aquilo não era apenas sobre Wren; era sobre os fantasmas que assombravam ambos.
“Não estou tentando consertar nada”, respondeu Leo baixinho, passando a mão pelo cabelo escuro. “Só quero que ela saiba que alguém se importa”.
Felix zombou, com expressão cética. —Feliz? Você acha que pode simplesmente entrar na vida dela e consertar tudo com o seu... com isso que quer que seja? —Ele gesticulou vagamente para Leo, como se tentasse abranger toda a desesperança de Leo.
Leo sentiu uma onda de raiva mas manteve o controle. —Não estou tentando consertar nada —disse ele, com a voz firme apesar do tumulto dentro dele—. Só quero que ela saiba que alguém se importa.
Felix se inclinou para frente, sua voz baixando quase a um sussurro. «Ela tem pessoas que se importam com ela. Ela temigo. Você não sabe do que está falando».
Leo segurou o olhar de Felix, vendo o fogo protetor em seus olhos. Ele entendia aquilo; sentia o mesmo por Wren. Mas havia algo mais ali, algo não dito que Felix não estava dizendo.
“O que você não está me contando, Felix?”, perguntou Leo suavemente, inclinando-se também. O espaço entre eles parecia encolher, carregado de uma corrente subterrânea de desespero compartilhado.
A expressão de Felix vacilou por um instante, uma vulnerabilidade passageira antes que se endurecesse novamente. — Wren teve alguém uma vez — disse ele, com a voz quase sussurrando. — Alguém que ela amava. Alguém que... partiu o coração dela.
Leo sentiu uma pontada no peito, uma mistura de ciúmes e empatia. Ele pensou na tatuagem de Wren, o pássaro desbotado que refletia a de Maeve. A conexão entre todos eles parecia se intensificar com cada revelação.
—O que aconteceu? —perguntou Leo, com a voz quase inaudível.
Felix desviou o olhar, seu foco se voltando para a janela onde a chuva escorria pelo vidro. «Ele a deixou. Só sumiu um dia. Ela nunca falava sobre isso, mas eu vi como aquilo a destruiu».
A mente de Leo acelerou, os pedaços do quebra-cabeça se encaixando no lugar certo. A perda da memória, o apagamento das rascunhos e palavras — tudo parecia ter origem nesse trauma.
“E você acha que eu vou fazer o mesmo coisa?”, perguntou Leo, tentando esconder a amargura da voz.
Félix encontrou o olhar dele novamente, seus olhos buscando. —Não sei o que você está fazendo, Leo —admitiu—. Mas vejo como você olha para ela. Como se fosse um tipo de milagre.
Leo não podia discordar disso. Wren era um milagre para ele, um momento fugaz de conexão em um mundo que parecia cada vez mais vazio.
“Ela é”, disse Leo simplesmente. “E eu não vou machucá-la”.
Felix o observou por um longo momento antes de falar novamente. —Tem mais uma coisa —disse hesitante—. Wren mantinha um caderno de esboços. Um compartilhado, com… ele. Eu o encontrei depois que ele foi embora. Estava cheio de desenhos dos dois, momentos felizes. E ali, na última página, havia um retrato.
Leo sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
—De vocês —terminou Felix, com a voz quase inaudível.
A cafeteria pareceu desaparecer enquanto Leo processava essa nova revelação. Um caderno de esboços compartilhado, um retrato — tudo apontava para uma conexão mais profunda do que ele poderia ter imaginado.
—Por que você está me contando isso? —perguntou Leo, com a voz firme apesar do tumulto dentro de si.
Felix recostou-se na cadeira, sua expressão indecifrável. —Porque eu quero que você entenda —disse ele—. Wren passou por um inferno e voltou de lá. Ela não precisa mais de outro fantasma assombrando-a.
Leo assentiu lentamente, o peso das palavras de Felix se instalando sobre ele como um lençol funerário. Ele pensou em Maeve, na maldição que os unia todos nesta teia entrelaçada.
“Não serei um fantasma”, prometeu Leo suavemente. “Seriá real. Para ela”.
Felix o estudou por um longo momento antes de assentir, como se tivesse tomado uma decisão interna. —Tudo bem —disse ele—. Mas se você machucar ela… Ele deixou a ameaça pairando no ar entre eles.
Leo se levantou, pegando sua jaqueta da cadeira de trás. —Não vou —disse com firmeza—. Você tem minha palavra.
Felix o observou ir embora, sua expressão indecifrável. Quando Leo saiu para a chuva, ele sentiu uma estranha determinação. Ele sabia o que tinha que fazer.
O estúdio de Wren estava silencioso quando ele chegou, o suave zumbido da cidade lá fora mal era ouvido através das janelas fechadas. O cheiro de tintas e carvão pesava no ar, familiar e reconfortante. Leo hesitou na porta, lembrando-se das palavras de Felix sobre o passado amoroso de Wren, do caderno compartilhado.
Ele bateu suavemente e ouviu os passos dela se aproximando do outro lado da porta. Quando ela abriu a porta, seu sorriso era hesitante mas genuíno.
—Leo —ela disse suavemente, abrindo caminho para ele entrar—. Você está encharcado.
Leo escovou gotas de chuva do cabelo e retribuiu o sorriso dela. — Está chovendo forte lá fora.
Wren fechou a porta atrás de si, levando-o ao coração do seu estúdio. Tela após tela enfeitava as paredes, cada uma um retrato dos momentos fugazes capturados com clareza espetacular.
“Estes são incríveis”, disse Leo, caminhando lentamente pela galeria improvisada. Cada peça parecia conter uma história, um pedaço de memória ou emoção.
Wren o observava do outro lado da sala, com uma expressão indecifrável. — São apenas coisas que vejo — disse ela simplesmente. — Coisas melhor deixadas invisíveis.
Leo se virou para encará-la, com a voz firme apesar da agitação dentro de si. —Por que você os apaga? —perguntou ele suavemente—. Os esboços, as palavras... por que você continua tentando esquecer?
Wren desviou o olhar, um leve rubor em suas bochechas. —Porque lembrar dói —admitiu suavemente.
Leo deu um passo para mais perto, seu coração doendo por ela. —E se não precisa machucar? —perguntou baixinho—. E se há uma maneira de guardar as partes boas?
Ela encontrou o olhar dele então, seus olhos procurando seu rosto como se buscasse respostas. —Não sei como —sussurrou ela.
Leo estendeu a mão e, hesitante, segurou-a com a sua. A pele dela era fria e macia contra a palma da sua mão, e ele sentiu um choque de conexão que pareceu firmá-lo. — Talvez possamos descobrir isso juntos — disse suavemente.
Wren olhou para suas mãos entrelaçadas, um pequeno sorriso brincando em seus lábios. —Juntas —repetiu, como se estivesse testando a palavra.
Leo apertou suavemente a mão dela, sentindo um lampejo de esperança no meio do caos. Ele sabia que o caminho à frente era incerto, cheio de obstáculos e dor. Mas naquele momento, com a mão de Wren em sua e seu olhar suave encontrando o dele, ele sentiu uma clareza que não experimentava há anos.
“Eu prometo”, ele disse suavemente. “Não vou deixar você esquecer”.
A chuva continuava batendo nas janelas, um ritmo constante que parecia ecoar o martelar do coração de Leo. Ele ficou ali, segurando a mão de Wren, sentindo o peso da sua promessa se instalando sobre ele como um juramento. O que quer que viesse em seguida, ele estava pronto para encará-la com honestidade e braços abertos.
Ele soltou sua mão então e deu um passo para trás. — Eu deveria ir — disse ele, com a voz quase sussurrada. — Mas vou voltar.
Wren assentiu, sem tirar os olhos do rosto dele. —Eu sei que você vai —disse ela suavemente.
Enquanto Leo saía do estúdio, fechando a porta atrás de si, não conseguia se livrar da sensação de que algo havia mudado —algo fundamental e profundo. Ele saiu novamente para a chuva, com a cabeça erguida, os passos determinados. O ar noturno estava fresco contra sua pele, mas por dentro ele sentia um calor que desafiava o tempo.
Ele sabia o que tinha que fazer agora. Ele diria à Wren a verdade sobre a maldição. Não toda — talvez ela não estivesse pronta para isso — mas o suficiente para dar-lhe uma escolha. O suficiente para deixá-la decidir se essa conexão passageira significava algo mais.
A cada passo, Leo sentia o peso de sua decisão se instalando sobre ele. Era um risco, uma salto no desconhecido. Mas era sua escolha, e ele estava pronto para enfrentar quaisquer consequências que pudessem surgir. As ruas encharcadas pela chuva embaçavam ao seu redor enquanto caminhava, mas seu caminho estava claro.
Ele lhe contaria tudo — ou o máximo que ela pudesse suportar — e esperaria que, naqueles cinco minutos, algo de verdade pudesse se instalar.