Capítulo 2 – A Dor Faz Recordar
Estremecei com a aspereza em sua voz, preparando-me para um golpe que nunca veio. Em vez disso, ele se inclinou, inspirando profundamente. O ar mudou, tornando-se denso com um odor que me embrulhou o estômago. Ele estava *farejando* meu cheiro?
“Você cheira… peculiar”, ele resmungou, as narinas dilatando enquanto aspirava uma lufada do meu aroma. Encolhi-me. Era algum ritual animalístico?
A compreensão me atingiu lentamente, uma reação tardia sobre a qual havia sido avisado. Minha mente finalmente alcançou a situação. Gritei, estendendo as mãos, e cambaleei para trás enquanto ele me soltava, caindo na terra áspera.
“Você é… uma criatura mutante”, gaguejei, as palavras jorrando em uma torrente. “Um desses tipos Taylor Lautner.”
Sua testa franziu, a cabeça inclinando-se em confusão. “Que diabos é uma criatura mutante Taylor Lautner?”
As peças se encaixaram. “Você sabe… um lobisomem”, sussurrei, olhando para ele por baixo dos cílios.
Ele não respondeu, sua expressão ilegível. Era como se estivesse ativamente repassando seus próprios pensamentos.
“Crepúsculo?” soltei, forçando o contato visual.
“Quer dizer aquele filme ridículo com lobos e vampiros falsos?” ele cuspiu, nojo impregnando seu tom.
“Não diga assim”, cruzei os braços, curvando os lábios. “Saiba que foi um dos meus filmes favoritos. Assisti e li todas as versões e sequências.”
As palavras jorraram, alimentadas por uma onda defensiva. Estava ficando muito agitado, muito perto de perder o controle. Levantei-me e apontei para ele, a raiva ardendo. “Não insulte meu filme favorito! O conceito inteiro do filme era ótimo.”
Quando terminei meu pequeno discurso, um rosnado baixo reverberou em sua garganta. É, ele *era* um lobisomem.
“Bem, isso está complicado”, murmurei, recuando cautelosamente. Peguei uma pedra grande e a arremessei para além de sua cabeça, esperando distraí-lo. Funcionou. Ele virou a cabeça, dando-me a chance de disparar. Corri pela trilha, o chão da floresta borrando sob meus pés até que minha camisa ficou presa em um galho.
Puxei o tecido, lutando contra o obstáculo. Finalmente, rasguei-me, rasgando o tecido, e continuei correndo, o vento uivando através dos restos esfarrapados da minha camisa.
Explodi da floresta, a brisa familiar lavando sobre mim. Desabei de joelhos, ofegando por ar. Senti como se tivesse corrido uma maratona sem nenhum treinamento.
Cambaleei de volta para a casa e me refugiei no galpão no quintal—sempre destrancado, sempre vazio. Encolhi-me no canto, revivendo a última hora em minha cabeça.
“Então Ezril basicamente apenas vagueia pela floresta, cai na água, e um lobo—não, um lobisomem—o puxa para fora, e ele corre porque começa a rosnar para ele”, murmurei, repassando os eventos em terceira pessoa. Era um mecanismo de enfrentamento, uma maneira de se desapegar e recuperar algum senso de controle.
Passei a mão pelo cabelo, a frustração aumentando. “Você sabe o quê? Vamos esquecer que isso aconteceu. Lobisomens não são reais.”
E assim eu fiz. Deixei o cansaço me dominar, caindo em um sono sem sonhos. Pela primeira vez em anos, não acordei gritando.
Estava em um vasto campo, exuberante com vegetação de todos os tipos. Ao longe, algo brilhava com uma luz atraente, me chamando para mais perto. Era quente, reconfortante—uma sensação que não sentia há anos. À minha direita, outro aglomerado da mesma luz pulsava suavemente. Estava cativado.
Estendi os braços, alcançando o calor, e então acordei, estirado no chão gasto do galpão. Suspirei, ainda sentindo o toque fantasma daquela luz. Meus braços ainda queriam estender-se e agarrar algo. Mas então meus olhos pousaram em meu pulso.
“Meu relógio!” Ele havia sumido. O relógio de prata, a última coisa que minha mãe me havia dado. O pânico inchou, forçando-me a sentar, batendo a cabeça nas vigas do galpão.
“Auch.” Esfreguei a cabeça, e junto com a dor, uma certeza nauseante me invadiu. O relógio estava lá fora, emaranhado no tecido rasgado da minha camisa, preso no galho na floresta.
“Não, não quero voltar”, sussurrei, minha voz quase inaudível.
Olhei para a janela. Amanhecer. Arrastei-me em direção à floresta, um pressentimento se instalando em meu estômago.
Aventura parte dois. Ótimo. Apenas esperava não ter que enfrentar a criatura novamente.