Capítulo 1
Você tem cinquenta e seis chamadas perdidas do Sr. Stark. Peter ignorou o insistente pedido de Karen, apoiando-se pesadamente contra a parede fria de tijolos. Já fazia mais de uma semana desde que havia pisado em uma sala de aula pela última vez, e ainda mais tempo desde que sentira a fome se dissipar em algo menos… vazio.
A chamada havia chegado durante a terceira hora, uma voz estéril e clínica transmitindo a notícia de que Tia May se fora. As máquinas falharam, e com elas, o último lampejo de esperança.
Ele não queria voltar para o apartamento. Mais uma família, mais uma vida perdida na órbita de Peter Parker. Ele era uma maldição, um buraco negro para qualquer pessoa que ousasse amar. Sua mãe e seu pai, Ben… agora May. Cada perda parecia um pedaço de si mesmo se dissolvendo em cinzas.
“Só cale a boca, Karen,” ele murmurou, a garganta áspera de tanto uso.
“Sobrescrição de programação,” piou a IA. “Chamada de entrada do Sr. Stark.”
“Moleque, você tem uma boa razão pra estar ignorando minhas ligações,” trovejou Tony Stark pelo telefone, mais ácido do que o normal. “E não pode ser tarefa de casa.”
Peter engoliu em seco, o nó na garganta um obstáculo doloroso. “Eu… eu simplesmente não consigo,” ele engasgou, cortando a conexão.
Tony rastreou a localização de Peter, um pequeno ponto vermelho pulsando no mapa. Ainda em Queens. Ainda em um beco. Bom. Por enquanto.
Peter fixou o concreto sujo, perguntando-se quanto tempo levaria para a escuridão o reivindicar. Quanto tempo antes o peso de tudo o esmagasse completamente. Ele imaginou uma rendição silenciosa, um reencontro com aqueles que havia perdido.
“Moleque, nós precisamos conversar.”
Ele se virou, o coração batendo contra as costelas. Lá estava: o brilho familiar de vermelho e dourado. Antes que pudesse responder, sua visão embaçou e o mundo virou de cabeça para baixo, mergulhando na escuridão.
————Salto Temporal————
Peter piscou, o branco estéril de uma sala médica o assaltando.
“Calma, garoto.”
Sr. Stark. Ele estava na Torre dos Vingadores. O pânico surgiu. Forçou-se a olhar para o homem mais velho, preparando-se para uma bronca.
“Então,” Tony disse, a voz cuidadosamente neutra, “vai me dizer por que estava deitado na rua, praticamente implorando pela obliteração?”
Peter sentiu a raiva por baixo da superfície, mas algo mais também. Piedade? Uma tristeza cansada? Alívio por não o ter encontrado tarde demais?
“Eu descobri que o Serviço de Proteção à Criança estava procurando por você, Pete. Você está ausente da escola há uma semana. As notícias estão começando a fazer perguntas. E o Homem-Aranha não é visto há dias. Eu te encontrei encolhido em um beco, parecendo que queria desaparecer.”
Tony olhou para o garoto pálido e frágil na cama. Ele não tinha visto esse tipo de desespero nem mesmo após as piores batalhas.
“Underoos, estou preocupado com você. Me diga o que aconteceu.”
Os olhos de Peter arderam, e a represa se rompeu. As palavras jorraram, um torrente desesperado e fragmentado. “May… ela se foi. E nunca mais vai voltar. E é toda minha culpa. Como Ben. Como minha mãe e meu pai. Eu não sou um herói mais. Eu sou um assassino.”
“Não foi sua culpa, Pete.” A voz de Tony era firme, mas carregada de compaixão.
“Foi sim!” Peter estalou, o coração acelerado, lutando para respirar. “Sempre é minha culpa.”
Tony sentou-se na beira da cama, o próprio peito doendo com o peso da dor de Peter. Como tanta dor poderia ser infligida a alguém tão jovem? Ele estendeu a mão para a de Peter, e o garoto se inclinou para ele, lágrimas escorrendo pelo rosto.
“Garoto, existem algumas coisas que não podemos evitar. A morte é uma delas.”
“Mas eu sou um super-herói! Eu impesso incontáveis pessoas de morrerem, mas não consigo nem salvar minha própria tia. Eu sou patético.”
“Peter…”
“Só vá embora, tá?”
Tony se levantou, a mandíbula tensa. Ele não podia forçar, ainda não. Precisava deixar Peter afundar na dor, entender que não estava sozinho. Ele deixou o quarto, deixando Peter enterrar o rosto no travesseiro e soluçar.
Peter abriu os olhos. A cabeça doía, os olhos estavam vermelhos e inchados, o estômago roía de vazio. Quando esse tormento acabaria?
Um homem de jaleco branco entrou no quarto.
“Olá, eu sou Bruce…”
“Banner, eu sei.”
Bruce parecia ligeiramente impressionado. O conhecimento de Peter sobre seu alter ego era… perturbador.
“Você é um cientista fenomenal, sua pesquisa é inovadora,” Peter continuou, lutando contra o cansaço.
“Você gosta de ciência?” Bruce perguntou gentilmente.
“Eu amo.” O peito de Peter se apertou, uma onda familiar de dor o invadiu.
Bruce viu a agonia piscar no rosto de Peter. “Eu vou pegar algo para ajudar com a dor.”
“Eu estou bem,” Peter respondeu, cerrando os dentes. “Eu nem sequer preciso estar aqui.”
Bruce sorriu, um gesto pequeno e reconfortante. “Ordem do chefe. Tony quer que você descanse o máximo possível.”
Peter se recostou, a exaustão finalmente o dominando. “Ok, ok. Mas amanhã eu saio daqui. Ordens ou não.”
Bruce sorriu. “Eu vou passar a mensagem.”
————Salto Temporal————
Peter observava Tony Stark entrar em seu quarto, uma calma estranha e deliberada sobre ele.
“Sr. Stark, eu estou pronto para ir. Estou bem, honestamente.”
“E onde exatamente você iria? O apartamento foi vendido. O Serviço de Proteção à Criança está nos encurralando. Onde você planejava desaparecer?”
“Eu não sei. Em algum lugar.”
Tony revirou os olhos. “Você vai ficar comigo, até resolvermos isso.”
Peter abriu a boca para protestar.
“Não, não. Isso é final. Você vai ficar aqui na Torre, até eu dizer o contrário.”
“Sim, Sr. Stark.”
“E depois de tanto tempo, você não acha que poderia me chamar de Tony?”
Peter assentiu, um pequeno sorriso puxando seus lábios. “Talvez.”
Tony deixou Peter a seus pensamentos, pegando o telefone. Ele precisava fazer providências, permanentes. Ele sabia exatamente o que fazer.
“Alô? Sim, este é Tony Stark. Eu gostaria de discutir Peter Parker. Sim, ele está seguro. Não, não somos parentes. Sim, ele está comigo agora. Eu não quero nenhuma atenção indesejada. É isso? Ótimo. Tchau.”
Ele havia feito isso. Finalmente se tornado um pai. Agora, tudo o que tinha que fazer era contar a Peter.
Ele deslizou a porta de vidro, um sorriso genuíno se espalhando pelo rosto. Peter se sentou ereto, sorrindo quando viu Tony entrar no quarto.
“Ei, Sr. Stark… quer dizer, Tony.”
“Eu tenho boas notícias.”
“Quer dizer que eu posso sair desse quarto, impedir Bruce de se preocupar freneticamente comigo?”
“Bem, isso, e eu tenho um lar permanente para você.”
“Tony… eu não quero…” Ele nem conseguia articular o medo que o consumia.
Tony colocou as mãos nos ombros de Peter, acalmando-o gentilmente. “Não, Peter, eu quero dizer que você vai ficar comigo. Eu te adotei.”
A expressão preocupada de Peter desapareceu, substituída por um sorriso confuso. “Obrigado, Sr. Stark… obrigado,” ele sussurrou, enterrando o rosto no abraço do homem mais velho.